Filosofia Clínica-FC: Conversação entre os Tópicos 10: Estruturação de Raciocínio e 16: Significado*

Para começar essa conversação, ou melhor, para continuá-la, pois parece-nos que toda vez que iniciamos uma conversa, o fazemos com base em “n” outras conversas já tidas antes, em “n” outros conhecimentos e saberes que vamos acumulando ao longo e ao largo de nossas experiências e vivências.

E, especialmente em FC, isso tem um significado especial, por tratar-se de um pensar e um fazer filosóficos que tem na história, na historicidade uma de suas bases norteadoras, seja na construção de conhecimentos e saberes, de conceitos, seja na prática clínica e/ou nas consultorias organizacionais.

Assim vamos significando e resignificando o mundo que, como já vimos, é também “resultado” de nossa “vontade e representação”, seja no âmbito das nossas singularidades, particularidades e/ou generalidades de relações.

Dessa forma, elaboramos nosso pensamento, o qual se estrutura à medida que pensamos a nós mesmos e ao mundo circundante, do qual somos e fazemos parte. E vale lembrar que pensar, aqui, envolve não somente um processo mental, puramente racional, mas engloba todo o nosso ser, onde sentimentos, mentalizações, meditações, sensações, emoções, racionalidades, intuições formam o conjunto de nossos conhecimentos e saberes, formam o conjunto do que somos, do que fazemos e “moldam” a forma como nos expressamos e os “meios”, os “modos” que utilizamos para nos expressar (T15-Semiose e T21-Expressividade).

Nesse universo, uma das formas de nos expressarmos, é a linguagem, especificamente o verbo, a fala, quando passamos a narrar nossa historicidade, no caso da clínica filosófica enquanto um processo terapêutico.2

Agora sim, podemos falar especificamente do T10-Estruturação de Raciocínio relacionando-o diretamente ao T16-Significado.

Como dissemos acima, é do conjunto de nossas experiências, vivências, estudos, pesquisas, práticas que vamos elaborando nosso pensamento. E é justamente isso que o Filósofo Clínico vai observar no T10: como se estrutura o pensamento do Partilhante.

Pensamos não se tratar aqui de “classificar” tão somente se o raciocínio da pessoa é bem ou mal estruturado, considerando apenas um logicismo ou um formalismo3. Trata-se de apreender e compreender, com base nos jogos de linguagem utilizados, a forma como os termos e os conceitos vão sendo utilizados e dispostos no discurso, verificando a relação e o sentido entre eles na malha intelectiva do Partilhante.

E aqui, unindo a história vivida e o conhecimento construído ao longo das Histórias das Filosofias, a lógica formal, o empirismo, a analítica de linguagem, a hermenêutica, a epistemologia contribuem para embasar a “ação” do Filósofo Clínico.4 Tendo sempre em mente que o raciocínio dá-se num contexto específico, afetado pelas circunstâncias e é então que ele tem ou ganha significados.

Podemos tomar como exemplos pessoas que com singularidades existenciais e/ou situações bastante específicas, com grandes sofrimentos, que estão sob efeito ou façam uso de drogas, lícitas ou não, em estados de profunda tristeza ou alegria efusiva etc que podem afetar seu estado mental e sua estruturação de raciocínio5. Mas, mesmo assim, é possível colher daí “logicidades”, ou melhor, sentidos e significados, pois a FC não se atém a um único tópico da Estrutura de Pensamento-EP isoladamente, mas da “conversação” entre todos eles. A plasticidade da existência de cada pessoa e a plasticidade de seu pensamento, usando de uma certa redundância, estão em constante movimento, fazendo-se, nunca acabando-se ou concluindo-se.

Nesse sentido, haveria o risco de o Filósofo clínico julgar um determinado raciocínio como bem estruturado e outro como mal estruturado, mesmo pautando-se na lógica formal? Seria possível um processo clínico-terapêutico totalmente isento de julgamentos prévios?

O que é “bem” ou “mal” estruturado? Ou mesmo, o que é “estruturado”? A vida dá voltas, e em determinados momentos e/ou em determinadas situações e circunstâncias podemos estar com o pensamento mais claro ou mais nebuloso. Tudo depende… E é por isso que o terapeuta, mesmo com referências prévias, como as da lógica formal, por exemplo, deverá ater-se ao discurso do partilhante inserido em seus contextos, em suas circunstâncias, para estar o mais próximo possível da significação daquele discurso, daquela linguagem que a pessoa compartilha com ele.

Dissemos acima que, afetados pelas circunstâncias, é então que nosso raciocínio, que a forma como pensamos e nos expressamos tem ou ganha significados. Por isso não tem como falar de Estruturação de Raciocínio (T10) sem falar e relacioná-lo com o Significado (T16). Afinal, não é justamente o significado do que o Partilhante traz que o Filósofo Clínico procura compreender?!…

Isso posto, passemos para o T16 – Significado.

O dicionário diz que significado é:

1.relação de reconhecimento, de apreço; valor, importância, significação, significância; 2. m.q. significação (‘representação mental’); 3.Rubrica: linguística.na terminologia saussuriana, a face do signo linguístico que corresponde ao conceito; conteúdo; etimologia: latim: significatus, significare, ‘dar a entender por sinais, mostrar, significar (Houaiss eletrônico 2009)

Aquilo que dizemos, falamos, os termos e conceitos que usamos têm um significado, pois simbolizam tudo o que vimos aprendendo e apreendendo ao longo de nossas existências.

Vale atentar aqui para a importância de que “temos de nos valer, em algumas situações, de outros recursos epistemológicos, além dos sentidos e da razão, para tentar entender o significado contido nas “coisas”; a intuição, a reflexão, a imaginação e o próprio silêncio assumem importância, auxiliando-nos a identificar valores dificilmente tangíveis instantânea e racionalmente: há muitas maneiras de se entender as coisas que nos chegam, há muitos modos de cada um de nós compreendermos os sinais que nos são emitidos, os signos” (PARDAL, 2001). Aqui também podemos estabelecer relação com outro tópico, o T15-Semiose, “o que o partilhante usa para expressar-se? Fala, gestos, expressões faciais, postura corporal, música, dança, literatura, poesia, desenho, pintura, escultura, etc… (AIUB, 2004)

De qualquer modo, nossa linguagem não deixa de ser uma representação mental que tem um sentido simbólico, através do qual buscamos representar o mundo6, relacionando-o com os termos e conceitos que utilizamos. “Significado é, justamente, a pesquisa de como o partilhante significa os conteúdos que expressa pelos diferentes dados de Semiose” (AIUB, 2004). “Não esquecendo que, conforme declara Wittgenstein: “a linguagem é um labirinto de caminhos”. O significado é aquela parte do símbolo que se dá a conhecer através da percepção, enquanto representação de uma ideia no intelecto” (PARDAL, 2001).

Da mesma forma como a vida, a existência não é conclusiva, não é um “poema em linha reta”, como diria Fernando Pessoa, o significado também não é algo acabado, mas antes um processo do pensamento que, como já dito, na medida em que é afetado vai dando sentido às coisas, ao mundo.

Diante do exposto, podemos considerar que ao Filósofo Clínico, através da interseção que vai estabelecendo com o Partilhante, cabe pesquisar o significado presente na linguagem utilizada por ele, o significado que ele atribui ao que diz, ao que expressa7, para, então, elaborar o processo terapêutico-clínico, este também em constante movimento e passível de mudanças.

Nos jogos de linguagem, nas representações de mundo, nos Princípios de Verdade (T26) compartilhados entre Partilhante e Filósofo Clínico é que vão clarificando-se as linguagens, as ideias, os raciocínios e os significados que atribuímos e atribuiremos à existência.

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*Paulo Roberto Grandisolli – Filósofo Clínico – Recanto da Filosofia Clínica – São Paulo/SP – 140818

1 Uma referência : Convite à Filosofia, de M. Chaui. Ática, SP, 1994, cap. 5, pp. 136-151.
2 Observamos que o verbo, a fala é uma das formas de expressão, mas não a única. E na FC, a/o terapeuta irá observar quais os principais modos de expressão a/a Partilhante tem como predominantes para poder “narrar” sua historicidade. O que tem a ver com o T15-Semiose.
3 Isso não quer dizer que se abre totalmente mão da lógica formal, pois sem o conhecimento desta não seria possível uma verificabilidade de “confusão” ou não no discurso, podendo, inclusive, haver como confutá-lo e auxiliar o Partilhante a “clarear” suas ideias, seus pensamentos, se necessário.
4 Poderemos nos referir como contribuição para pensar esses tópicos Aristóteles, Vico, Descartes, Kant, Rousseau, Wittgenstein, Ricoeur, Fromm, Foucault, Chaui entre outros. Tiburi, em Filosofia Prática – Ética, Vida Cotidiana, Vida Virtual, Record, RJ, faz algumas referências à linguagem.
5 Nesses casos cabem pesquisas que apontem quais caminhos tomar. Mas referente a isso teríamos assuntos para outras tantas conversações. Vale deixar registrada essa observação.
6 Indicamos Erich Fromm, em A Linguagem Esquecida – Uma Introdução ao Entendimento dos Sonhos, Contos de Fadas e Mitos, 8ª edição, Zahar Editores, RJ, 1983: II. A Natureza da Linguagem Simbólica, pp. 19-27.
7 Como no pensar e no agir “quase tudo te a ver com tudo”, não teríamos como deixar de falar de outro tópico, o 21. Expressividade, que é “O quanto do que sou e do que penso expresso ao outro? De que maneira expresso? (AIUB 2004).

Solidão, uma questão filosófica

O dicionário define Solidão como sendo “estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só; sensação ou situação de quem vive afastado do mundo ou isolado em meio a um grupo social; estado ou condição de duas pessoas (ger. casadas) que, não obstante, vivem juntas, não se entendem nem se comunicam uma com a outra; (latim solitudo/inis), solidão, retiro, desamparo, abandono” (Houaiss, 2009).
Parece certo que a solidão, o saber-se e o sentir-se só é próprio da condição humana e manifesta-se tanto individualmente quanto na coletividade, na sociedade. O indivíduo sabe-se e sente-se só. Mas uma sociedade, um povo pode também ter essa sensação e consciência de solidão diante de contextos sociais, políticos, econômicos, culturais que o levem a perceber-se só. Por exemplo, na ausência de políticas sociais que promovam a inclusão e diante do descaso e dos desmandos das elites e do governo, as classes menos favorecidas e desprivilegiadas, podem sentir-se e saber-se abandonadas, solitárias. E estas mesmas causas, que atingem a sociedade como um todo, afetam cada pessoa em particular, cada uma a seu modo com mais ou menos profundidade. Um indivíduo que trabalha arduamente, recebendo uma remuneração não condizente às suas necessidades básicas e em condições inadequadas, sente-se desvalorizado e desamparado por não conseguir ver saídas. Pior ainda quando é bombardeado pelo tipo de “pensamento único” e propaganda que tenta lhe incutir a ideia de que basta esforçar-se, acreditar e “correr atrás de seus sonhos” para conseguir galgar os degraus da fama e da prosperidade. Discurso e prática, inclusive, de igrejas e seus pregoeiros. E se não o consegue é porque não se esforçou o suficiente, não teve o “mérito” para tal. Qualquer semelhança com o que vivemos em nosso país presentemente, não é mera coincidência.
Outro exemplo nos dá Octavio Paz, no livro O Labirinto da Solidão, no qual apresenta um retrato dos mexicanos, dizendo ser a solidão uma das características desse povo, lembrando os aspectos geográficos-climáticos que influenciam os estados de ânimo; fazendo uma releitura da história, desde seus primórdios, quando os vários povos autóctones tinham suas culturas próprias e uma consciência mítica da realidade; passando pela devastação promovida pela invasão e colonização, quando foi forçado a mascarar-se e assumir outras identidades; pela revolução de 1910; pelas ditaduras político-militares até a então atualidade (o livro é de 1950), vivendo nessa “dialética da solidão” de ser e não ser, de estar e não estar, de pertencer e não pertencer ao seu próprio lugar e ao mundo, especialmente por ter assimilado, durante todo o período colonizador e ditatorial, que era um país e um povo menor, sem cultura, tendo os modelos europeu-espanhol e estadunidense como os corretos, os melhores. E nesse movimento dialético busca (re)construir sua identidade própria enquanto povo.
Sob as várias visões, sentidos e significados dados, repetimos, a solidão é inerente à condição humana. Dela tratou e trata vasta obra literária, como o romance do colombiano Gabriel Garcia Márquez, Cem Anos de Solidão. Na poesia, sabemos, é tema recorrente, a exemplo da obra Solidão Compartilhada, da poeta pernambucana Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, donde destacamos o poema Aviso. Ou na música, como A Solidão é Fera, de Alceu Valença.
Por tratar-se de algo característico da existência humana, a solidão é considerada uma questão filosófica. E filosoficamente pode ser pensada e cuidada. O Dicionário de Filosofia conceitua solidão da seguinte forma: “O isolamento dos outros ou a busca de uma melhor comunicação. No primeiro sentido a S. é a situação do sábio que, na sua figura tradicional, é perfeitamente autárquico e por isso isolado em sua perfeição (v. SAPIENTE). Fora desde ideal, o isolamento é um fato patológico: é a impossibilidade da comunicação que se liga a todas as formas de loucura. Em sentido próprio, contudo, a S. não é isolamento mas antes a busca de formas diferentes de comunicação” (Abbagnano, 1970). Daí vemos que faz-se uma distinção entre solidão e isolamento, sendo a primeira algo necessário e positivo, i. é, a pessoa retira-se, volta-se para si mesma, refletindo sobre seus próprios pensamentos e seu modo de ser e estar no mundo, visando o crescimento humano, a sabedoria; e o segundo, como algo negativo, que faz com que nos fechemos e nos isolemos, perdendo a capacidade de comunicação até conosco mesmos.
Mas convencionou-se, em nossa cultura ocidental, e como destacado no início desse texto, dar ao termo solidão esse significado/sentido negativo, ao menos na grande maioria das vezes. O que não quer dizer que não possamos ressignificá-lo. Assim sendo, como poderíamos tratar, cuidar filosoficamente dessa questão?
No texto de Octavio Paz, bem como na poesia de Maria do Carmo, vemos apontados caminhos: Paz propõe uma reflexão crítica do ser mexicano, tendo como base sua história, levando-o à ação e à libertação e a afirmar-se enquanto povo. Maria do Carmo sugere que, embora não se possa repartir nem dividir as solidões, assumi-las e colocá-las lado a lado, pois o desamparo une as pessoas.
Podemos dizer que tanto num como noutro caso, essas são atitudes filosóficas. E aqui a Filosofia Clínica, atenta às singularidades de cada pessoa, assim como para a realidade de uma sociedade, de um povo, pode contribuir para que vivamos mais conscientes de nossa condição e capazes de enfrentar os desafios pessoais e coletivos que vivenciamos. Afinal, ela, a FC, atém-se à historicidade, donde busca-se elementos que situem as pessoas e as coletividades e as façam sentir-se localizadas existencialmente, apropriando-se de seus destinos e tornando-se capazes de interferir nos rumos de suas histórias pessoais e coletivas.
Paulo R. Grandisolli

Filosofia Clínica e alguns desafios ao cuidados de si e dos outros

Parece-me que a aposta, o desafio que toda história do pensamento deve suscitar, está precisamente em apreender o momento em que um fenômeno cultural, de dimensão determinada, pode efetivamente constituir, na história do pensamento, um momento decisivo no qual se acha comprometido até mesmo nosso modo de ser de sujeito moderno.” (Michel Foucault, A Hermenêutica do Sujeito, 2006, p. 13)

Ao abordar o cuidado de si, Foucault ressalta tratar-se de um fenômeno cultural que surge num determinado contexto e estende-se por um período também determinado caracterizando a filosofia antiga como “preceito de vida”, i. é, uma vida filosófica implica não somente o conhecimento de si, mas antes e principalmente o “cuidado de si”. Torna-se fundamental apreender, ou seja, “assimilar mentalmente, abarcar com profundidade, compreender, captar”, esse fenômeno para que se possa dimensionar sua importância e o seu impacto na história de vida das pessoas e da sociedade.
O cuidado de si, como fenômeno historicamente determinado, afetou o modo de pensar e o comportamento de gerações futuras, passando pelo início do cristianismo até o período moderno e, podemos dizer, continuando pela atualidade. Resta saber se esse fenômeno foi e está sendo devidamente apreendido.
Foram e são muitos os movimentos surgidos, especialmente quando da “virada do terceiro milênio” (lembrando que essa demarcação do tempo diz respeito à civilização ocidental-cristã), ressaltando a necessidade e a importância de as pessoas atentarem mais para o cuidado de si e para o cuidado com o meio em que vivem. Movimentos esses das mais diversas orientações ideológicas, políticas, espiritualistas, religiosas etc, o que não nos cabe discutir aqui, embora isso mereça um olhar crítico. Mas alguns questionamentos podem ser postos, tais como:
– Com o avanço vertiginoso do neoliberalismo, até que ponto as políticas dele derivadas, determinadas pelas grandes corporações agro-industriais-financeiras, p. ex., e acatadas pelos governos, fazendo uso dos grandes meios de comunicação, cooptam a ideia do “cuidado de si” para implementar e inculcar nas pessoas a ideologia de que se deve buscar esse “auto-cuidado” cada um por si, num excesso de zelo individualista, onde o mérito de cada pessoa determine quem são e serão os vitoriosos e os fracassados, gerando angústia e letargia naqueles que não conseguem alçar os degraus da fama e da riqueza por serem apontados e se acharem fracos e incapazes?
– O impacto das novas tecnologias e o acesso ou a falta de acesso a essas tecnologias: Como colocarmo-nos frente aos avanços científico-tecnológicos e repensarmos o cuidado de si nesse contexto, garantindo que cada pessoa, na sua singularidade, e a sociedade como um todo sejam respeitadas e tenham suas necessidades para o bem viver garantidas?
– Como posicionar-se dentro da natureza, pensando e agindo de modo que os outros seres viventes também sejam reconhecidos como “sujeitos” de direitos?
– Como pensar-praticar novas políticas e formas de participação nos rumos das sociedades condizentes com os desafios da contemporaneidade?
Essas questões e outras tantas que possam surgir visam enfocar o como esse fenômeno cultural surgido na Grécia antiga, iniciado e incentivado pelos filósofos de então, marcou a história do pensamento e da própria Filosofia, pois também foram e são vários os “movimentos filosóficos” que tomam o cuidado de si como uma orientação para a construção de teorias e práticas que visam ressaltar a ideia de um conhecimento filosófico condizente com modos de ser e estar no mundo.
Este é e continuará sendo um desafio para a Filosofia Clínica em particular, justamente por ser ela um saber e um método terapêutico que visa o cuidado para com a pessoa, considerando sua historicidade, contextualizada numa história maior, cujos acontecimentos interferem, ora com maior ora com menor intensidade, na vida de cada sujeito.
Compete também aos Filósofos Clínicos, que pesquisam e elaboram saberes-conhecimentos próprios da Filosofia Clínica, fazendo uso de todo o saber-conhecimento filosófico construído até agora, mas que principalmente colocam-se diante de seus partilhantes ouvindo atenta e respeitosamente suas histórias e caminhando com eles na busca de um viver mais atento e cuidadoso para consigo mesmos e para com o mundo, observar quais os fenômenos culturais, políticos, sociais têm um impacto maior na vida de cada um, das comunidades e da sociedade em geral, e que influenciam positiva e negativamente nos modos de pensar e ser das pessoas.
O cuidar do outro e o cuidar de si deve contemplar essas e tantas outras questões possíveis…
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Paulo Roberto Grandisolli

Outridades e Filosofia Clínica

OUTRIDADE: OUTRO/A + IDA + IDADE
A OUTRA pessoa que é minha igual, mas que é, principalmente, ao mesmo e no seu próprio tempo e ritmo, diferente de mim.
A OUTRA pessoa que é IDA, i. é, que vem, que vai, que é movimento, que tem o direito e quer construir seu próprio caminho.
A OUTRA pessoa que tem sua IDADE, i. é, que tem seu tempo, seu ritmo, seu compasso próprio.
Eu e o(s) outro(s). Eu diante do(s) outro(s). Eu ao lado do(s) outro(s). Eu adiante do(s) outro(s). Eu na contramão do(s) outro(s). Eu acima e abaixo do(s) outro(s). Eu com e sem o(s) outro(s). Eu dentro e fora do(s) outro(s). Eu que me aproximo e me afasto d(s) outro(s). Eu que desejo e repugno o(s) outro(s). Eu que sou outro(s). O(s) outro(s) que são eu. Eu igual e diferente do(s) outro(s)…
A(s) outra(s) pessoa(s). O(s) outro(s) homem(ns). A(s) outra(s) mulher(es). O(s) outro(s) animal(ais). As outras plantas. As outras espécies vivas. As outras metades das maçãs. As outras palavras. Os outros aromas. Os outros olhares. Os outros toques. As outras circunstâncias. Os outros sons. Os outros sentidos e sentires. As outras realidades. As outras etnias. As outras sociedades e culturas. Os outros tempos. As outras crenças e descrenças. Os outros lugares. As outras peles. As outras contingências. Os outros pelos. Os outros paladares. As outras relações. As outras geografias. Os outros gumes das facas. Os outros corpos. As outras ideologias. Os outros afetos e desafetos. Os outros espaços. As outras políticas. Os outros amores e dasamores. Os outros lados das mesmas moedas. Os outros assuntos. Os outros sexos e gêneros. As outras tecnologias. Os outros sonhos. As outras orientações sexuais. As outras mundivisões. Os outros mundos possíveis e impossíveis…
O “eu profundo e os outros eus” de Fernando Pessoa. O eu que é “vária” de Cecília Meireles. “O inferno são os outros” de Sartre. A outro como alteridade de Martim Buber. O outro como lucro: mão-de-obra, força de trabalho, objeto exploração e de prazer no mercado do sexo. O outro como objeto de estudo para as ciências. O outro como ensinante e aprendiz de Cora Coralina. A outra face dos Evangelhos…
E o rol de outridades vai ao infinito, mesmo diante das limitações de meu e de nosso modo sentir, pensar, aprender, entender, falar, de expressar enfim.
Tudo assim, sem agrupar essas e tantas outridades possíveis. Pois tudo tem a ver com tudo. Eu sou e nós somos a(s) parte(s) e o(s) todo(s). Não tem como dissociar corpos, gastronomias, políticas, geografias, sexos etc e tal. Até podemos fazê-lo por questões de métodos, didáticas, ideologias, interesses, poderes. Mas, na vida, isso não é possível. Não somos seres divididos. Em tudo sou e somos interdependentes.
Às vezes e quase sempre essas outridades e singularidades dos outros nos interpelam e não nos dizem nada; nos encantam e nos desencantam; nos desafiam e nos apatizam; nos curam e nos ferem. Mas nunca ou quase nunca nos deixem imunes. Acredito que não tenho como me esquivar diante dos outros. Contraditoriamente e ambiguamente eu sou eles e eles são eu. Ao mesmo tempo que singulares, iguais e diferentes.
E admitindo, querendo ou não, sem os outros, sem as diferenças, eu e os outros não teríamos as referências que nos possibilitam pautar a nossa existência. Nós olhamos e somos olhados. Pensamos e somos pensados. Nos construímos e somos construídos. Vivemos e somos vividos. Como diz o jargão popular moderno: tudo junto e misturado.
Diante desses(as) tantos(as) outros(as), quem sou eu? Quem é/sâo o(s) outro(s) e a(s) outra(s). É essa indagação que as filosofias, ao longo da(s) história(s), fizeram e continuarão a fazer. Sim, continuarão, pois eu, os outros e as outras somos processo, somos movimento. Nunca serei, nunca seremos os mesmos e as mesmas sempre. Somos caminho. Somos construção.
Parodiando o poeta: pela longa estrada eu vou, nós vamos; estrada eu sou, nós somos…
Penso que em todo o dito até aqui, está a Filosofia Clínica enquanto terapêutica existencial, enquanto terapêutica da vida. Deverão estar imersos em seus eus e nas outridades, como terapeutas, o Filósofo Clínico e a Filósofa Clínica. Supõe serem pessoas sensíveis, que têm ciência de ser um eu diante de outros eus. De ser singularidades diante de outras singularidades. De ser diferentes e ser iguais. E, por isso, buscarão colocar-se perante as outras pessoas para contribuir, para trilhar com elas caminhos que as levem a entender-se e a viver melhor com as suas igualdades e as suas diferenças, com as igualdades e as diferenças das outras pessoas, com as certezas e as dúvidas, com as perguntas com respostas e as perguntas sem respostas que, penso, todos e todas temos. A viver de forma mais serena com os vários eus que as habitam e com todas as outridades com quem convivem e se relacionam. E respeitando “a dor e a delícia” de cada pessoa ser quem é e construir o que quer ser.
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Paulo R. Grandisolli

Filosofia Clínica e o Feminismo

Lendo a obra de Ivone Gebara, Filosofia Feminista – Uma brevíssima introdução (2017), comecei a pensar, com base no que a autora diz acerca de uma filosofia feminista, se a Filosofia Clínica, tanto em sua concepção como em seu modo de pensar e fazer filosofia, também não seria uma “filosofia feminista”. Mesmo porque, tanto a palavra “filosofia” como a palavra “clínica” são substantivos femininos. E até porque, em sua origem, a Filosofia é considerada a mãe de todas as outras áreas do saber.
A autora afirma que “a filosofia feminista surge quando nós, mulheres tomamos consciência de que também nós somos convidadas à mesa do pensamento, e temos todas as possibilidades de pensar a vida com maestria e sabedoria. Afinal não somos nós que arrumamos a mesa e preparamos a comida? Por isso não desprezemos o convite que a história de hoje nos faz a todas nós: ousar pensar a vida e vivê-la podendo dizer com dor e amor: eis-me aqui”.
Esse “eis-me-aqui”, penso, também é a proposta da Filosofia Clínica, pois ao colocar-se frente a frente com a pessoa, de acordo com sua historicidade e com as dores e as alegrias do cotidiano, buscará, junto dela, ajudá-la a pensar a si mesma, a vida, ao mundo de seu jeito próprio, desengessado pelos padrões impostos. E mesmo que faça uso do conhecimento filosófico construído ao longo da história, procurará abordar esse saber e traduzi-lo de acordo com a singularidade de cada um, de cada uma. Não será a vida que se adaptará a uma ou mais teoria filosófica, mas o contrário: o que esse conhecimento construído pode oferecer para que essa pessoa se conheça melhor e se municie de saber para criar e recriar sua identidade própria e afirmar seu modo de ser e estar no mundo.
Gebara visa, em meu entender, despertar e reforçar nas mulheres essa sua capacidade de sentir, pensar, entender, dizer, expressar a vida desde aquilo que lhes é próprio, não no sentido de que esse “lhes é próprio” já tenha sido determinado pela natureza ou por interpretações que delas fizeram – geralmente feita por homens, mas desde como elas mesmas se sentem, se veem e se mostram para si mesmas e para o mundo.
Assim também a Filosofia Clínica quer contribuir para que as pessoas assumam-se nas suas singularidades, não ficando presas aos padrões e aos pré-juízos que se constroem por terceiros e que se estabelecem enquanto convenções e conveniências de uma sociedade marcada pelos preconceitos, pelos machismos, pelos fascismos e toda ordem de desmandos que buscam enquadrar a pessoa de acordo com o que é considerado “bom” para manutenção da “ordem” e do status quo.
A autora reforça que compete às mulheres que o “pensar filosoficamente a vida, procurando as razões das muitas coisas que vivemos, é de certa forma se retirar das atividades comuns para assumir de forma específica a atividade de pensar, compreender, relacionar, buscar dados e escrever”, admitindo sempre “o limite de nossas percepções e de nossos pensamentos”, mas ousando fazê-lo por si mesmas.
E continua: “não há verdades feitas a serem ensinadas, mas caminhos desde os quais há que aprender a viver na insegurança. Por isso é necessário voltar à trama da vida e acolher a sua constante mobilidade como aprendizado coletivo”.
Igualmente em Filosofia Clínica, filósofo clínico e partilhante buscarão a construção compartilhada de saberes que levem a uma nova atitude perante a vida individual e coletiva.
“Narrar a história dos outros é um enorme exercício de poder sobre eles e elas. É reduzi-los à nossa visão e narrativa”. Por isso, são as mulheres que deverão continuar narrando as suas próprias histórias e não mais admitirem que essas histórias que lhe são próprias, embora partes de uma história maior, sejam narradas por outros, na sua grande maioria homens, que as colocaram e colocam como personagens passivas e submissas, destinadas a reproduzir modelos viciados e opressores de mentes e corpos. É a partir de seus próprios corpos, enquanto algo que lhes é próprio e singular, mas também enquanto afirmação social e política, que essa nova filosofia deve ser construída.
Mais uma vez aqui, a Filosofia Clínica aproxima-se da filosofia feminista, pois o terapeuta jamais deverá narrar a história da pessoa com base em suas interpretações, mas proporcionar à pessoa que ela mesma seja a narradora de sua história, com base no que sente, pensa, entende de si mesma e do mundo. E deverá ter uma escuta atenta à literalidade do que lhe é dito, para assim iniciar o processo de entendimento do modo de ser e estar da pessoa.
Pode ser pura elucubração essa minha tentativa de aproximação da Filosofia Clínica de uma Filosofia Feminista, melhor dizendo, das Filosofias Clínicas e das Filosofias Feministas. Mas vejo que ambas buscam olhar de um modo diferente para a pessoa e para o mundo, resgatando aquilo que deu início ao filosofar, que é essa capacidade de espanto, de angústia, de questionamento frente às coisas da vida e ao mundo.
Sim, a Filosofia Clínica pode ter essa postura feminista também enquanto desafio na construção de um novo filosofar, mesmo porque ao colocar-se frente a frente com as pessoas ou grupos ou organizações, o/a terapeuta terá que ter esse olhar singular para aquela singularidade diante da qual se coloca, seja ela de que gênero for, masculino, feminino ou tudo junto e misturado, assim como é ou deveria ser a vida. O mundo multifacetado exigirá de nós sentires, pensares, agires que nos possibilitem respirar melhor os ares que nos perpassam os corpos individuais e coletivos, buscando mudanças de ares numa sociedade e num mundo onde imperam o poder e a força bruta e os machismos de toda ordem que ainda teimam em dominar mentes e corpos.
Mas, como vem mostrando o movimento feminista, mentes e corpos não podem ser subjugados para sempre. O desejo de liberdade de pensamento e ação é mais forte.
“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida”.
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Paulo R. Grandisolli

É POSSÍVEL MENSURAR O AMOR? – Exercícios filosófico-sentimentais…

“Faça tudo para que, quando estiver prestes a morrer, não se arrependa por ter amado pouco.” (Chiara Lubich, 1920-2008)
Lendo essa frase numa destas folhinhas-calendário vêm-me uma série de questionamentos.
Assumo, de antemão, que apenas a li desta maneira, solta, sem conhecer se essa opinião faz parte de um texto maior, de qual texto, de que momento ou circunstância o mesmo foi escrito ou verbalizado.
E mesmo conhecendo um pouco da autora, se é que foi ela mesma que o disse (tantas palavras/pensamentos são atribuídos a tanta gente sem citação de fonte ou comprovação…) e sabendo de sua confissão e prática religiosa cristã/católica, mesmo assim isso daria motivos para não me atrever a dar uma opinião, pois correria o risco de, desconhecendo o contexto, fazer juízo de valor sobre o dito e sobre quem o diz.
No entanto, vou me arriscar…
E começo por perguntas tais como:
O que seria o amor? O que seria o desamor? De que tipo de amor se fala? Quem ama? Quem é amado? O que se ama? De que forma se ama? Quais as formas do amor? O que é arrepender-se? O que é não arrepender-se? Arrepender-se do que? O que é a morte? O que é estar prestes a morrer? Se for o caso de arrependimento, por que só fazê-lo quando se está prestes a morrer? O que é ter amado pouco? O que é ter amado muito? É possível mensurar o amor? Assim como qualquer outro sentimento?
Tendo essas questões em mim é que me atrevo a discorrer um pouco sobre assunto. Isso porque, como ser questionante e, como diria Clarice Lispector, “eu sou uma pergunta”, não posso e não consigo ficar quieto comigo mesmo diante de tais “frases de efeito”, como tantas que vejo proliferar por aí, especialmente hoje com as redes sociais (facebook, instagram, watsapp etc…) nas quais, a todo momento, hora, dia, semana, mês se deseja a felicidade (feliz segunda, terça, quarta… feliz isso ou aquilo…) e te amo daqui e de acolá… e por aí vai… Isso tudo me incomoda bastante e dá-me a impressão de que, por fazermos uso exagerado de tais “mecanismos”, o fazemos justamente porque nos falta aquilo que exacerbadamente desejamos uns aos outros. Aliás, isso já é “comprovado” pelas teorias psi: amamos aquilo que nos falta.
E, principalmente em tempos sombrios como os que vivemos, onde os valores são invertidos especialmente por aqueles que determinam a ordem estabelecida, ou seja, os políticos e governos de plantão, sempre a serviço das elites financeiras que os mantém, onde as oportunidades parecem cada vez mais escapar da história da grande maioria dos mortais, parece crescer vertiginosamente esse tipo de comportamento, reflexo de um sentir e de um pensar que, na realidade, são pseudo pensamentos, pois buscam numa realidade “ilógica” argumentos para “racionalizar” e mensurar, nesse caso, a capacidade de sentir e os sentimentos das pessoas. Aliás, controlar os corpos e os sentimentos é fundamental para manter o status quo, a (dês)ordem dominante. “Sorria, você está sendo filmado”, quer dizer, “sorria, você está sendo vigiado”. Em Vigiar e Punir, Foucault já apontava para isso. E seria arriscado dizer que hoje, além dos mecanismos tradicionais de vigilância, as redes sociais são os panópticos modernos e estaríamos nós confinados em grandes zoológicos, mesmo quando dentro de nossas casas? Disso tudo é desafiante libertar-se. Isso se se quiser a liberdade como valor maior. Quando se ama a liberdade, podemos assim dizer.
O amor, o desamor, que tipo de amor, quem ama, quem é amado, como se ama, de que forma se ama, o arrependimento, o arrepender-se ou não, a morte, o estar prestes a morrer, o pouco, o muito… tudo depende de cada experiência de vida, da singularidade de cada pessoa, da história que se viveu e se vive, das relações que estabelece ou não, daquilo que é ou não importante em sua vida, da liberdade que se busca e se conquista. Não dá para enquadrar toda e qualquer pessoa num dito como o mencionado acima e daí concluir que tal pessoa, estando prestes a morrer, que é o corte pelo qual passaremos, tenha amado muito ou pouco. As histórias de cada humano ser são muito mais complexas do que podemos supor ou imaginar. Nada na vida é simples, principalmente em se tratando de formas de sentir.
Nosso sentimento para conosco mesmos, para com o mundo, para com tudo o que nele existe, para com as pessoas em particular, suponho, é “algo” de muito profundo e multifacetado, a depender, sempre, dos “estados” em que nos encontramos e das diversas relações estabelecidas ou não, das circunstâncias, dos lugares, dos tempos, dos diversos assuntos, das diversas questões com as quais nos deparamos. Somos um constante processo, no qual vamos aprendendo amores e dasamores.
Como diria Octávio Paz (1914-1998), em seu texto Máscaras Mexicanas: “O amor é uma tentativa de penetrar em outro ser, mas só pode ser realizado sob a condição de que a entrega seja mútua” (O Labirinto da Solidão, 1984, p. 41). E isso, penso eu, deve valer para toda forma de amor. Como canta o poeta, “toda forma de amor vale a pena, toda forma de amor vale amar”.
E caberá a cada pessoa dispor-se a essa entrega. Na vida, e no amor, quase sempre saltamos no escuro. Estando ou não prestes a morrer. E não há medidas…
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Paulo Roberto Grandisolli

Filosofia e Política

A dúvida, a inquietação, a contestação e a busca são próprias da investigação filosófica. As filosofias nasceram dessas atitudes diante das questões que instigam e inquietam mulheres e homens ao longo da história, desde os “mistérios” da natureza, passando pelas questões cruciais da existência humana, como o sofrimento, a morte, as angústias, até as questões éticas, políticas, sociais e culturais. No filosofar tudo cabia e tudo cabe, desde que o exercício do pensamento não permaneça no mero senso-comum ou apenas no bom senso, que não se reduza a mera especulação e teorização, mas traga contribuições e transformações concretas e necessárias para a vida cotidiana, em termos do que se chama filosofia da práxis.
Práxis, aqui entendida como um pensamento, uma reflexão que estimula a prática; mas uma prática que instigue o constante pensar, repensar e refazer conceitos, teorias etc, objetivando a transformação da realidade. Práxis não é mera prática; mas, ação, conduta. Ação e conduta que se identificam com o próprio modo de pensar, ser a agir no mundo, não só enquanto ação de indivíduos, mas principalmente enquanto ação coletiva. Um pensar e agir coletivos que levem a uma transformação social. Rosa Luxemburgo (Polônia/Alemanha, 1871-1919), Antonio Gramsci (Itália, 1891-1937), Adolfo Sánchez Vázquez (Espanha/México, 1915-2011), Paulo Freire (Brasil, 1921-1997), Carlos Nelson Coutinho (Brasil, 1943-2012), são alguns desses filósofos que contribuem para nosso entendimento acerca da práxis. Vale lembrar, principalmente, Karl Marx (Alemanha/Londres, 1818-1883), ao afirmar que os filósofos, até então, haviam interpretado o mundo; a questão mais importante é transformá-lo.
Atualmente, em várias partes do mundo, particularmente no Brasil, vivemos num chamado estado de exceção, que no dizer do filósofo italiano Giorgio Agamben (1942-), é aquele que “apresenta-se como forma legal daquilo que não pode ter forma legal”*; uma frágil democracia se mescla ao autoritarismo. Em nosso país, após um golpe midiático-político, instalou-se um governo declaradamente submisso às oligarquias econômico-financeiras nacionais e internacionais cujo propósito é consolidar o neoliberalismo, em que o mercado tem absoluta liberdade para ditar e implantar as regras da política, restringindo a ação do Estado sobre a economia. Daí os chamados direitos civis e sociais passarem a ser gerenciados pelas grandes corporações como mercadoria, imperando a suposta “livre” negociação, sobretudo nas relações de trabalho. Sabe-se daí, como diz o ditado, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. E toda essa forma de pensar e gerir a política estende-se como uma “práxis perversa” para todos os aspectos da vida humana, como a educação, a saúde, a cultura. Sejam observados projetos como o escola sem partido, o escanteio de matérias como Filosofia e Sociologia nos currículos escolares, a privatização de serviços básicos como energia e saneamento, a expropriação de territórios de populações indígenas e quilombolas, as intervenções em exposições e performances artísticas, entre outras, que temos presenciado ultimamente.
Enfim, o estado de exceção expõe um obscurantismo nas áreas do direito e da democracia, instaurando-se um estado policialesco, no qual o judiciário age como mandatário supremo, à guisa dos outros poderes, todos mancomunados, espetacularizando ações, inquéritos, conduções coercitivas, prisões… E os grandes meios de comunicação, especialmente a TV, corroboram e contribuem para levar ao delírio uma grande parcela da população que não foi e não é estimulada a pensar por si mesma, repetindo o pensamento único veiculado e tido como verdadeiro. Daí, pensamentos e comportamentos preconceituosos e discriminatórios (xenofobia, LGBTfobia, misoginia, linchamentos, intolerância religiosa etc) afloram e se sentem legitimados por boa parte dos que ocupam e usurpam cargos no Congresso, nos Supremos Tribunais e demais instâncias governamentais.
Mas, e daí? Para que serve afinal a filosofia? M. Gadotti, filósofo brasileiro, em artigo publicado no periódico Reflexão (PUCCAMP)**, já tematizava essas questões aliadas ao ensino e estudo da Filosofia. Naquela época, então sob uma ditadura militar, constatava que “na ordem do sistema capitalista, a única filosofia tolerada é a filosofia da alienação. O capital precisa cada vez mais de homens alienados. (…) As discussões sobre a opressão e a ditadura certamente não terão lugar numa classe de física ou de matemática”. Afirmava também que “a filosofia deixou de ser o lugar do debate dos grandes (e graves) problemas do homem contemporâneo. (…) Pretensiosamente, a filosofia dos especialistas, dos filósofos por profissão, recusa-se a tratar dos problemas concretos e urgentes dos homens, para servir às organizações políticas e econômicas do capitalismo”. Vivemos uma situação análoga. Daí a urgência de nos reapropriarmos da filosofia, entendermos a necessidade de um filosofar, como “exercício do livre debate, ensinar e aprender a problematizar o que parece evidente, necessário, correto; ensinar e aprender a contestar (…). Nesse sentido, cada vez mais o filósofo me parece como o homem da suspeita, o homem que não duvida apenas, mas vai além da dúvida, suspeita sistematicamente e sobretudo das evidências, das coisas que se apresentam de forma definitiva, das coisas claras, que há sempre algo que não se mostra, que está escondido atrás das aparências, suspeita da parcialidade daquilo que vê”.
Consideramos parte essencial do pensamento filosófico ver para além das aparências e debruçar-se sobre as questões do cotidiano, de um sistema que submete homens e mulheres como meros componentes de uma pretensa “máquina pensante” e lhes incute a ideologia de se tornarem, como diz o filósofo chileno V. Safatle***, empreendedores de si mesmos, cujos pensamentos, corpos e desejos são controlados pelos grandes “centros de tecnologia-entretenimento-informação” formadores de “um tripé basilar da economia mundial”, reduzindo-os a objetos e negando-lhes as individualidades e o primordial direito ao pensamento e ao agir autônomos. Defendemos um filosofar que colabore para o restabelecimento e a consolidação da democracia brasileira, inclusive pensando noutros modelos, que não apenas o modelo democrático representativo, como as democracias comunitárias e participativas, em que as pessoas, o povo possa se pronunciar em sua soberania e como origem do poder político.
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*Giorgio Agamben, Estado de Exceção, 2004.
**Moacir Gadotti, Para que serve afinal a Filosofia? Reflexão, PUCCAMP, 4/13, jan-abr/79.
***Vladimir Safatle, O Cirucuito dos afetos – Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo, 2015.
Marcelo Bezerra Oliveira / Paulo Roberto Grandisolli

A razão cínica*

Previamente quero esclarecer que o termo razão cínica não tem aqui a conotação ética da escola grega dos tempos pré-socráticos.
Denomino razão cínica ao procedimento que pretende justificar ou pelo menos querer legitimar aquilo que pelas vias do raciocínio lógico rigoroso é injustificável e inaceitável.
Trata-se de uma postura cínica no sentido antiético e vulgar.
O movimento filosófico denominado Escola Cínica, atribuído aos pensadores ditos cínicos, caraterizava-se pelo desprezo das convenções e preconceitos relativos ao comportamento do senso comum. Objetivava uma vida de simplicidade radical e renúncia à posse de bens. A provocação de um choque mediante a quebra de tabus e convencionalismos rígidos. Uma postura de cepticismo e questionamento.
Atualmente, o discurso pautado pela razão cínica, longe desta tendência, consiste numa posição superficial, autoritária e afirmativa do conformismo subserviente à estabilidade do sistema dominante. Trata-se de uma razão cega, porque vê, mas finge não ver. Sabe, mas não reconhece; por ser politicamente conveniente e submissa aos interesses ideológicos dos que fazem a negação das evidências. Enquanto a filosofia cínica dos gregos antigos tinha uma posição cognitiva de contestação aos padrões dominantes, a razão cínica atual, sendo conformista, sequer se assume como tal, porque pretende se camuflar enquanto discurso que defende exatamente a manutenção desses padrões, pelo discurso falacioso sem nenhuma força de argumento que mereça o nome de racionalidade lógica. O próprio termo razão, neste caso, está impróprio, já que se trata mais de uma negação da própria racionalidade. Seria uma espécie de desrazão ou anti-razão. Relacionadas de tal modo que racionalidade e cinismo se confundem, sem que um anule o outro. Nesse contexto só é possível ser racional sendo cínico.
Um dado estatístico evidente a todos, por exemplo, passa a ser evitado, negado ou simplesmente invertido, sem que se apresente uma razão suficiente para tal, afora o interesse do interlocutor que o nega. Trata-se mais de um discurso falacioso que pretende dissimular certo autoritarismo, mediante dados verdadeiros, porém invertidos; pelo avesso, digamos. Uma negação de dados verdadeiros, exceto para quem os rejeita, por invertê-los em razão de malignidade e má fé.
A razão cínica em sua postura poderá até usar o que chamamos má fé e malignidade. Embora, diga-se, não se confundem. Pelo fato de que se funda no saber e em sua negação.
No momento atual esse tipo de irracionalidade inconseqüente e irresponsável é usado para disfarçar o absurdo inocultável nomeado como crise econômica, crise de paradigmas, crise da razão. Contanto que não se nomeie como crise do sistema capitalista.
As “razões” da razão cínica são geralmente as chamadas “razões ocultas”, os interesses inconfessados, o que está escondido por preferências, negociatas, desvios, conveniências pessoais, corporativas, de classe social etc. Seriam os resquícios da famosa mão “invisível” de Adam Smith. Aquilo que está camuflado, que não aparece nem é nomeado, porém transparece nas decisões e escolhas dos sujeitos falantes. E assim já não é tão oculto. Em síntese, é o tipo de discurso em que o sujeito falante, fazendo uso de falácias, atinge um nível acentuado de inescrupulosidade. Paralogismo? Não. Pelo fato de que o simples paralogismo possui apenas uma falha de natureza lógico-formal no argumento, sem necessariamente usar de malignidade; enquanto o discurso da razão cínica sabe que é inverídico e perverso. Usa o que denomino perversão ideológica. Embora não se reduza a mera questão de ideologia enquanto falsa consciência.
Alguns exemplos de falácias freqüentes no discurso sociológico reacionário podem nos esclarecer. Quando se afirma que o encontro entre europeus e indígenas foi pacífico. Que os nativos foram bem tratados e presenteados. Afirmar que a escravidão dos africanos não foi uma questão racial, mas apenas econômica. Que os negros conviviam pacificamente com os brancos portugueses no território brasileiro. Afirmar que todo brasileiro pode ser candidato a presidente da república. Que todos são iguais perante a lei. Que os Estados Unidos querem implantar a democracia nos países do oriente. Que nos últimos quatro anos cerca de quinze milhões de brasileiros saíram da classe baixa para a classe média. Que o crescimento econômico de percentuais do PIB de um país traz melhoria de vida para o povo. Enfim, tais discursos fazem uso da perversão estatística, pela inversão de dados. Trata-se de uma forma de legitimação e justificação do injustificável e ilegitimável. Um discurso que recusa enxergar os fatos visíveis e a perversão interna de sua falácia. Não se trata de uma falácia que leva à perversão, mas é a própria perversão em palavras inócuas que se pretendem consistentes.
Além desses exemplos, outro tipo emblemático de máximo cinismo acontece quando o próprio arcabouço jurídico permite que parlamentares ou empresários criminosos de alta periculosidade, tendo comprovadamente desviado milhões dos cofres públicos, como membros de quadrilhas, sejam defendidos por advogados particulares filiados à própria ordem dos advogados. Em nome do “direito”!
Sempre um discurso vindo do poder que pretende justificar a própria necessidade de transgressão ou ilegalidade pelas brechas da legalidade. Pior ainda por se tratar de uma perversão ideológica produzida pelas elites dentro das universidades. Que não teve origem aqui, mas nas universidades dos Estados Unidos e dos países europeus. Países onde, segundo o discurso dessas mesmas elites cínicas, “tudo funciona”. Entenda-se: a alta criminalidade. A exemplo da Suíça, com seus paraísos bancários; a França e a Itália racistas; todos com seus esconderijos para a bandidagem internacionalmente organizada em torno do dinheiro.
Não seria difícil reconhecer que este tipo de postura também se faz presente no comportamento das massas, que geralmente tendem a repetir o senso comum e o banditismo das elites. Neste sentido ambas não se diferenciam tanto. As elites possuem poder para impor o absurdo. O comportamento inescrupuloso das elites, o seu banditismo, a sua delinqüência, incentiva a delinqüência assassina e mortífera das massas; como analisou e previu o pensador Jurandir Freire Costa, há vinte anos, em entrevista sobre a razão cínica das elites brasileiras de fins da década de oitenta; e que nos dias atuais só tem piorado (cf. A ética e o espelho da cultura).
As massas não dispõem de poder, mas consentem, aplaudem, apoiam e imitam a prática das elites no que há de mais sórdido. Por isso são tão horrorosas. A meu ver um dos obstáculos mais difíceis para uma prática pedagógica conscientizadora está justamente nesse cinismo generalizado que funciona como corruptor das populações.
Penso ser possível também identificar a presença da razão cínica no comportamento das massas. Claro, de maneira irrefletida. O que me deixa mais estarrecido e perplexo é a sua cegueira e conivência com os opressores. Gostam de aplaudir e cultuar os tiranos. Sofrem fome, discriminação, marginalidade; entretanto, ao menor convite para inaugurações de monumentos, comícios e pseudo-festas, lá estão em multidões, para aplaudir os chefes. Pior ainda, estão sempre dispostas para apoiar as ditaduras e todo tipo de autoritarismo. Sua dispersão adere à ordem do mais forte. Em momentos especiais da história da humanidade as massas sempre consentiram o assassinato de grandes lideranças potencialmente libertadoras, como Jesus Cristo, Gandhi etc. E ainda hoje continuam dispostas para o mesmo tipo de crime. São adeptas do coitadismo e ao mesmo tempo dispostas a apoiar os interesses dos tiranos. Dissimuladas e violentas. Isto esconde o reflexo da razão cínica inerente ao poder autoritário.
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*In Filosofia Popular, 2009, p. 126-130, de Marcelo B. Oliveira

A filosofia e o filosofar

O filósofo espanhol Adolfo Sánchez Vázquez (1915-2011), que viveu exilado no México devido à perseguição política da ditadura do General Francisco Franco Bahamonde na Espanha (1939-1975), similar à ditadura militar brasileira (1962-1985), guardadas as devidas proporções, defende uma filosofia engajada, isto é, se a produção e a prática da filosofia, pautada na concepção de Karl Marx, filósofo alemão (1818-1883) não contribuir para transformar o mundo, pode tornar-se, a Filosofia, ela mesma, mera interpretação.
Em sua obra Filosofia e Circunstâncias*, no Epílogo, Que significa filosofar?, Vázquez ressalta a necessidade e importância de distinguir a produção filosófica e a prática do filósofo, sendo esta última efeito da primeira, pois todo filósofo filosofa desde um lugar referenciado, contextualizado, embora, muitas vezes, sua produção ganhe “corpo em determinados textos que em sua trama abstrata, conceitual e objetiva parecem apagar as marcas do homem que o produziu.”
O autor aponta a clássica distinção feita por outro filósofo alemão, Immanuel Kant (1724-1804), “que pressupõe a distinção entre filosofar como atividade e filosofia como seu produto ou resultado”, sendo a filosofia “as doutrinas, teorias, categorias ou conceitos” e o filosofar o modo como esse conhecimento insere-se “na própria vida do filósofo, seja como prática especializada, profissional ou acadêmica (…), seja fora da universidade ou da sala de aula, como acontece com o filosofar rueiro de Sócrates, o prático-político de Marx ou o mundano de Sartre” (Jean-Paul Sartre, filósofo francês, 1905-1980).
É pertinente, segundo Vázquez, ainda citando Kant, fazer a distinção “com a qual o acento se coloca, sobretudo, não na filosofia, mas no filosofar. O que, por sua vez implica pôr o acento na aspiração, finalidade ou intenção com que o sujeito – o filósofo – produz certo objeto ou exerce sua atividade”.
Nesse texto, o próprio Vázquez coloca-se como filósofo produtor de um conhecimento próprio, perguntando-se e assinalando “qual é a finalidade prática, vital, à qual ele pretendeu servir: transformar o mundo humano que, por injusto, não podemos nem devemos fazer nosso. (…) Por isso, diante das recentes lições da história e as incertas perspectivas que alimentam, cabe também perguntar por que empenhar-se nessa transformação e não deixar as coisas como estão? A pergunta provoca uma resposta que ultrapassa a dimensão política, a saber: porque esse mundo é injusto, e não se deve aceitar a injustiça. Trata-se de transformar o que é não só porque ainda não é, mas também porque deve ser. A política tem que impregnar-se de um conteúdo moral que impeça seja ela reduzida a uma ação instrumental.”
(Não fosse outra a intenção, caberia aqui fazer uma analogia com a realidade brasileira atual, quando vivemos sob os desmandos de um governo que pratica uma política “reduzida a uma ação instrumental” voltada para os interesses das elites e oligarquias financeiras nacionais e internacionais. Mas esta seria uma outra história, embora tudo esteja relacionado, de alguma forma.)
Nota-se que Adolfo Vázquez, como dito no início, produziu e praticou filosofia também desde sua experiência de perseguido e exilado político, engajando-se na luta pela transformação da realidade sócio-política-econômica em que viveu, tanto na Espanha/Europa como no México/América Latina-Caribe** estando essa última, à época, sob o jugo do imperialismo e da exploração das grandes potências mundiais, especialmente os EUA.
Como consideração final do texto, o referido autor diz que: “Na verdade, toda filosofia tem efeitos práticos, ainda que sua finalidade, ao produzi-la, tenha sido meramente teórica”, citando novamente Marx, cujo distintivo “é por em primeiro plano essa atividade prática, vital, que, como temos salientado, suporta o imperativo moral de transformar o mundo que, para o filósofo, converte-se no próprio imperativo de pôr seu filosofar em concordância com essa finalidade”.
Queremos aqui ressaltar, em nossa mundivisão e em nosso modo de ver a filosofia, a importância de estudarmos, relermos, reinterpretarmos toda a produção filosófica realizada até então, como também a de produzirmos outras filosofias, que nasçam desde uma determinada realidade e que provoquem posturas filosóficas, filosofares que contribuam para as necessárias transformações do mundo em que vivemos, a começar, e paralelamente, pelas próprias transformações que, porventura, cada pessoa busca para sua vida, para o seu cotidiano.
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*Edição da Civilização Brasileira, 2002, p. 541-549.
**À época, a América Latina vivia sob o jugo do imperialismo e da exploração das grandes potências mundiais, especialmente os EUA. Passado o tempo e destarte todas as lutas pela independência e autonomia enquanto Pátria Grande e bloco de importância geo-político-econômico estratégico mundialmente, podemos dizer que a exploração e a dominação continuam, interna e externamente. Por isso, em nosso entendimento, faz-se necessário um filosofar que pense e atue na direção de um pensamento e de uma prática autônomos e que contribuam para firmarmos modos próprios de ser e estar no mundo enquanto povo latino-americano e caribenho.
Paulo Roberto Grandisolli

Poetofilosofia*

Da antiguidade até o presente, a história das filosofias e das literaturas em geral estão cheias de pensadores-poetas. Desde os pré-socráticos gregos, que eram filósofos-poetas, até Frederico Nietzsche e Gaston Bachelard, em cujas obras se mesclam voos filosóficos plenos de uma literatura acenando claramente para a poesia. Foram autores de uma prosa poética extraordinária.
A mundivisão filosófica não admite fronteiras rígidas e separadas nas áreas do conhecimento. Razão por que está sempre apontando para um “não-se-sabe-o-quê”, que poderá ser atingido poeticamente.
Como saber dialogante, em todos os povos que a cultivam, desde os primórdios de sua tomada de consciência como razão, a Filosofia se encontra tangencialmente com a Poese. Está em constante diálogo com a literatura. Enquanto atividades culturais podemos afirmar que, embora distintas, são inseparáveis. Consequentemente, Filosofia e poesia, que não se confundem nem são complementares, sempre se reencontram na história do pensamento. Diversas, mas dialogantes; enquanto participam da literatura, surgem nas literaturas das diversas culturas. A Poesia, por ter sido cronologicamente a primeira forma de pensamento, nos mitos e cosmogonias; a Filosofia, mais tardiamente, como logos, discurso conceitual e explicativo, surge como interpretação e crítica das mitologias, mas sem tomar o lugar da Poese. E é precisamente no campo da literatura dos povos cultivadores da escrita que elas dialogam, através dos seus pensadores, sobretudo aqueles que se dedicam à ficção literária, no romance, através da prosa. Inclusive, como dado literário inegável, torna-se difícil separar, na maioria dos autores, prosa e poesia. São escritores que escrevem fazendo uso de uma prosa poética.
Quanto à tematização da relação entre Filosofia, Literatura e Poesia podemos rastrear e vislumbrar isto desde o pensamento dos gregos, em Platão e Aristóteles, passando pelos renascentistas, pós-renascentistas, como Giambattista Vico, até os escritores modernos de meados do século XX, a exemplo de Bachelard, Michel Foucault, Blanchot, Heidegger, Sartre, Deleuze; sem esquecer György Lukács, grande especialista em Literatura e Filosofia da Arte. De modo que, mesmo não tendo escrito poemas, todos tiveram a literatura como temática de suas reflexões.
Enfim, na grande maioria dos melhores escritores, principalmente romancistas, torna-se impossível separar prosa e poesia. Alguns que não se dizem poetas, entretanto, escrevem como poetas. Fazem uso de uma prosa poética, pela forma e o recurso das metáforas e imagens com que se instrumentalizam para expressar a sua relação com o mundo da vida. Tais escritores, evidentemente, pensam o mundo mediante a sua produção literária.
Para mim os melhores escritores são especialmente aqueles que possuem esta característica de escritores-poetas; mesmo que não recorram às formas específicas do gênero poético tradicionalmente conhecido, como sonetos, paralelismos, estrofes e rimas. Aqueles que mais atingem e expressam a humanidade. Certamente porque compreendem e intuem que a vida é muito complexa e enigmática para ser comunicada e pensada apenas mediante conceitos. Mais ainda, por outra razão que considero princípio epistemológico: por perceberem que o sujeito humano, em sua condição existencial de sujeito cognoscente, não o faz de modo compartimentado. Pois é um sujeito que indaga, pergunta, busca, duvida, investiga, percebe, não somente através do raciocínio técnico, lógico-dedutivo, mas movido pelo desejo, como corpo que se apercebe em contínua tomada de consciência; como totalidade de sentimentos e sensações. Como sujeito que sofre, alegra-se, projeta, se entristece, imagina, cria e toma consciência de sua finitude enquanto parte de um cosmos virtualmente infinito que não se deixa apreender em sua totalidade inacabada. Sujeito que faz a experiência da complexidade da vida enquanto exprimível/inexprimível, enquanto dialética de sentido/não sentido; mediante a atitude poético-filosófica enquanto fronteiras intercomunicantes que detectam a própria experiência da incomunicabilidade: a perplexidade face ao desconhecido e imprevisível que é a vida.
Pensadores que dialogam com as diversas fronteiras do conhecimento filosófico-literário são produtores de uma poetofilosofia; uma poesia pensante. Sem a pretensão de eliminar a necessária distinção entre o filosófico e o poético, Filosofia e Poesia.Saberes diferentes, sim, mas dialogantes, enquanto formas de literatura.
É no campo da literatura que elas dialogam, porque toda forma de saber sempre supõe fronteiras, ao se deparar com seus limites. Ao mesmo tempo, é necessário que tais fronteiras não se fechem. Isto não é uma mera questão de metodologia, mas uma necessidade que brota do desejo humano de indagação e busca de respostas que possibilitem melhor fruição dos momentos da vida. A Filosofia enquanto esforço explicativo, conceitual, como sapiência “onisciente”, argumentativo; a Poesia como “omnissentiencia”, (uma forma de sentir tudo); admiração contemplativa, indeterminabilidade. O poema é canto, por ser ritmo e rima; convoca-nos ao silêncio; mas também nos move à ação-reflexão. Enfim, ambas são saberes. Poesia não é puro sentimento, imaginação ou delírio; pois encerra uma forma de percepção, ao pretender pronunciar o mundo numa outra perspectiva de saber – a perspectiva estética.Por isso se torna pensante. A poesia é memória; um tipo de memória que pode recuperar até mesmo aquilo que a nossa mente julgava perdido. Isto encontra-se na raiz da história do pensamento. E a ponte entre ambos se efetua pelo diálogo. Um diálogo entre pensador e poeta, filósofo e poeta, dirigido pelo pensamento, originando um pensar poético.Num mesmo pensador ou entre vários, naturalmente.
*Marcelo B. Oliveira – in Poetofilosofia/2015