Por uma clínica dos afetos

Paulo R. Grandisolli

O presente texto parte de nossas vivências-experiências no processo de ensino-aprendizagem-dialogicidade nos encontros do Curso de Construção Compartilhada dos Saberes/Conhecimentos em Filosofia Clínica, do Recanto da Filosofia Clínica/SP.

Faz parte de nossa prática, ao elegermos os textos de apoio para pensarmos a clínica, sejam filosóficos ou literários, acolhermos seus autores e suas autoras como partilhantes; e lermos esses textos – num exercício imaginário – como se estivéssemos escutando essas pessoas em clínica, buscando nos aproximar delas e de suas representações singulares de si e de mundo.

Um dos textos escolhidos, “Instrumental – memórias de música, medicação e loucura” (RHODES, J. 2017) nos acompanhou em boa parte do curso (Turma 2023/24), tendo o autor como nosso “partilhante comum”.

Por tratar-se de uma narrativa densa, visceral (e aqui, nesse qualificativo “visceral”, tem muito de pré-juízos do autor do presente texto¹), onde Rhodes narra sua experiência de violência/estupro na infância de forma muito clara, direta, havendo passagens “mais tocantes” que afetaram, de modos diferentes, cada pessoa do grupo.

Numa das aulas, uma das participantes do curso, disse que aquela faixa², em especial, “mexeu” muito com ela, dada a proximidade do assunto com experiências pessoais/familiares vividas (poderia ter ali um “princípio de verdade”?); e que, tratando-se de um exercício – imaginário, como dissemos – ela pensou em como seria escutar uma/um partilhante “real” e como não se deixar “afetar”, a ponto de que isso inviabilizasse a clínica.

Desde então, todo o diálogo girou em torno do sentido desse termo “afetar” (aqui, num exercício de “enraizamento”) e o quanto isso diz sobre a “interseção”, a qualidade da relação entre filósofa/o clínica/o-partilhante.

Brotou, daí, um “assunto imediato”: “‘resistir’ a se deixar ‘influenciar’ pelo Rhodes, mas permitir-se ser afetada de forma ‘consciente’”.

Poderíamos, aqui, abrir um parêntesis, e comentar sobre os termos, de modo especial esses destacados por aspas (tópicos 6, 7, 8 e 9 da Estrutura de Pensamento), mas, talvez, nos desviássemos do “assunto imediato”, que é a questão dos “afetos”.

Também poderíamos, numa tentativa de “fundamentar” a argumentação, recorrer a Espinoza, p. ex., um dos pensadores que pensa, desde suas vivências-experiências/estudos/reflexões, como nos deixamos afetar por aquilo que nos acontece, mas não seria o caso; salvo se quiséssemos um texto para outros fins, o que poderia ser válido noutra ocasião, noutro contexto. Afinal, os textos/estudos contribuem para “iluminar” a prática clínica e vice-versa. No entanto, aqui, como dizemos no Recanto, a prática clínica “legitima-se” por si própria, desde que exercida naquilo que a constitui: sua eticidade.

Retomando: parece que nos vemos diante de um “paradoxo”: se nos deixarmos e/ou não nos deixarmos afetar pela outra pessoa, podemos perder a percepção de nós mesmos e dela, ocasionando uma interrupção da escuta e inviabilizando a clínica.

“Não deixe o Rhodes te influenciar” (foi a fala de outro participante): compreendemos isso, no sentido de não querermos nos colocar no “lugar” da/o partilhante – mesmo porque isso parece não ser possível. Mas se não nos deixarmos afetar, nos “tocar” por ela/e, corremos o risco de não nos percebermos em nossos limites, em nossos pré-juízos, em nossa própria historicidade e, num movimento de “inversão”, escutar a nós mesmos, “achando” escutar o outro.

Só quando a historicidade, a vida da outra pessoa nos toca, nos afeta é que podemos nos perceber “em relação”; é também quando o outro percebe que tem diante de si alguém “de carne e osso” presente, “envolvida/o” consigo, atenta/o ao que diz e vive, que a/o acolhe, livre de julgamentos, em seus modos singulares de ser e de se expressar.

E o diálogo transcorreu com uma vivência-experiência prática em clínica (a participante em questão realizava seu estágio clínico): atendendo um casal, separadamente, disse que os “princípios de verdade” da esposa vinham muito mais ao encontro de seus próprios princípios do que os do esposo; disse de seu cuidado em não deixar que a representação de mundo de uma, afetasse a escuta e a aproximação da representação de mundo do outro; e de, principalmente, não deixar que a sua representação de mundo, no papel de filósofa clínica, afetasse a escuta, inviabilizando ambas as clínicas.

Depreende-se, daí, que a compreensão polissemântica³ da palavra “afeto” e, principalmente a vivência-experiência do afetar-se (em clínica, destaque-se aqui, mas também nas relações cotidianas), torna-se fundamental para que possamos, enquanto “bicho gente” e enquanto filósofa/os clínica/os sentirmos e fazer sentir que “acolher”, senão o principal, é um dos nossos principais modos de ser-estar em nossas vidas, nas vidas dos outros, no mundo…

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¹Embora eu assine esse texto, ele não é só meu, mas do coletivo que compôs o curso; como diz P. Freire, “não existe um ‘eu penso”, mas um ‘nós pensamos’” (FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? RJ. Paz e Terra.2013).

²Rhodes nomeia “faixa” cada um dos capítulos do livro, abrindo cada uma como se fosse a faixa de um LP/CD, referindo uma composição musical clássica, falando dela e de seu autor/compositor, conectando-a com o conteúdo da faixa. Podemos dizer que o partilhante, Rhodes, apresenta a música como um dado de semiose (Tópico 15) para expressar-se (Tóp. 21 e Submodo 31).

³Capacidade de uma mesma palavra ou expressão apresentar vários sentidos/significados diferentes, dependendo do contexto em que é inserida.

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RHODES, J. Instrumental: memórias de música, medicação e loucura. RJ. Rádio Londres. 2017.

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