M Silvia Abrão e Paulo R. Grandisolli
Há um modo de conhecer que brota do medo — não do medo que grita, mas daquele
que, em silêncio, vai tecendo as tramas do que aceitamos como verdade.
Uma partilha filosófico-clínica: Antes mesmo de se aproximar do seu filho — daquele
corpo, daquela voz, daquele modo único de estar — o pai, atravessado por notícias
de jovens que explodiram em violência, sobre narrativas que circulam como se
fossem a própria matéria do real, contruindo certezas, vai montando o tecido de uma
verdade sobre a puberdade, constituído por fios de relatos extrangeiros, formando a
ideia do que é ser jovem no mundo de hoje. Esse pai, guiado por um feixe de ideias
complexas que transformavam adolescentes em uma categoria homogênea e
ameaçadora, é tomado por um temor diante da possibilidade de impor limites ao filho
quanto ao uso do celular.
Enquanto isso, o filho — visto de perto, naquele corpo, naquela voz, naquele jeito
único de estar — permanece encoberto; sua sigularidade não pode ser percebida, já
que as certezas que acionam os alertas e prometem proteção, afastavam a
possibilidade do encontro.
Quando esse pai consegue se aproximar desse filho de outras formas, sem estar
atravessado pela construção das verdades sobre os adolescentes, nasce a
esperança, não a esperança ingênua que fecha os olhos, o otimismo, mas aquela
que, como diz Byung-Chul Han (HAN, 2024), é força ativa, que entende que podem
ser feitas “boas construções”.
O esperançar exige receptividade, pede que nos abramos ao desconhecido e ao que
ainda está por vir. É assim que esse pai poderá estar livre, desarmado das certezas
que o medo solidifica, permitindo que o outro, seu filho, apareça, não como ameaça,
e sim como enigma — um enigma que se revela na interseção, no encontro entre dois
modos de ser-no-mundo.
A Filosofia Clínica, quando se debruça sobre a epistemologia, não a trata como teoria
abstrata, mas como o modo concreto com que cada um organiza o que chama de
“real”.
Ali, naquela interseção entre pai e filho, o que ocupava o espaço não era o filho, mas
conceitos universalizantes, as imagens pré-concebidas, os juízos que chegam antes
do encontro.
O medo não vinha do que o filho fazia; vinha, sobretudo, da maneira como o pai sabia
o que diziam saber sobre “adolescentes” e sobre “risco”.
A pergunta que Paulo Freire (FREIRE, 2013) a – “como você sabe o que diz que
sabe?” – na clínica filosófica, pode ser compreendida como um convite: para buscar,
junto ao pai, quais fontes, quais narrativas, quais experiências alimentavam aquele
modo de ver o filho e a si mesmo.
Freire criticava a “extensão” de saberes prontos, em oposição à “comunicação” como
construção compartilhada.
Na clínica filosófica, procuramos nos aproximar dos modos do partilhante, que
organiza sua historicidade, suas representações, suas ideias complexas, em vez de
deixar que qualquer teoria seja um filtro que possa invisibilizar a singularidade.
Quando o primeiro passo em direção ao outro já vem calçado com as botas pesadas
dos universalizantes, o encontro tropeça antes mesmo de começar: no lugar da
interseção viva, instala-se um monólogo surdo, e o partilhante, em vez de ser acolhido
na sua singularidade, é apenas analisado, segundo teorias generalizantes.
O modo singular como cada um constrói, a partir de suas vivências, um “nós
pensamos” que lentamente se transforma em “eu penso” faz parte da epistemologia,
para a Filosofia Clínica: o que se entranha na própria historicidade. É assim que as
vivências se transformam em conceitos. Conceitos esses que, muitas vezes, se
alargam em universais, passam a funcionar como verdades, que servem para julgar
a si mesmo e aos outros. Então, investigar epistemologicamente é, perceber quais
valores, quais buscas, quais papéis existenciais e quais temores sustentam os modos
de saber do partilhante – como esses tornaram-se pilares na organização da Estrutura
de Pensamento.
Então, perguntas como “como você chegou a essa conclusão?”, “que experiências
você já viveu que confirmam ou não isso?”, “quem lhe ensinou a ver assim?”, ajudam
a tomar ciência do caminho pelo qual as certezas se constituíram.
Atravessar uma fronteira geográfica pode ser também atravessar as fronteiras
internas do que se tomava como evidente, verdadeiro. O “olhar brasileiro”, por
exemplo, poderia ser, antes de cruzar frontriras, um pré-juízo quase invisível, que
ganha contornos quando contrastado com outros modos de estar-no-mundo. A
convivência com outras culturas desloca convicções: o que parecia sólido se liquefaz,
e a curiosidade, tantas vezes adormecida sob camadas de certeza, volta a pulsar.
Nesse caso, a epistemologia deixa de ser um depósito de respostas prontas e se
revela como um campo de instabilidade fértil — um solo movediço onde o
conhecimento não se fixa, mas se move, se transforma, se refaz.
A frase “o conhecimento tende à certeza” soa estranha a quem experimenta o saber
como vir-a-ser, como rio que corre e não como rocha que permanece. O conceito de
“obstáculo epistemológico” de Gaston Bachelard (Bertoche, 2019) indica que, muitas
vezes, o que impede o avançar do saber não é a escassez de informações, mas o
apego a um modo rígido de conhecer, a uma forma de organizar a Estrutura de
Pensamento que se cristalizou em certezas. Em Filosofia Clínica, isso se mostra
quando uma pessoa sustenta sua existência sobre um conjunto de verdades que não
são apenas ideias, mas pilares afetivos — modos de se proteger, de dar sentido à
própria historicidade, de manter de pé o que se é. A epistemologia, assim, deixa de
ser uma teoria abstrata sobre o conhecimento e passa a ser a cartografia viva de
como alguém se move no mundo, sustentando-se em suas verdades provisórias,
sempre abertas ao encontro, à interseção, ao novo.
O gesto de gravar uma aula, ou fazer uso de qualquer outro recurso tecnológico**
para registrar o que se pretende aprender, para depois acrescentar impressões
pessoais, também pode ser compreendido como um movimento epistemológico na
perspectiva filosófico clínica. Transcrever é um modo de plasmar sinteticamente o que
foi partilhado; comentar é um exercício de reconstrução, no qual a pessoa reorganiza,
reinterpreta e, de certo modo, refaz a própria experiência do encontro. A memória
deixa de ser um depósito e se torna um exercício consciente de leitura e releitura —
um ir e vir entre o vivido e o significado —, aproximando-se da intuição freireana de
que a leitura do mundo, tecida na historicidade de cada um, precede e acompanha a
leitura das palavras.
A epistemologia, na Filosofia Clínica, refere-se à maneira singular como cada pessoa,
em sua historicidade, transforma o vivido em conhecimento, o conhecimento em
critério de ação e o critério em modo de ser-no-mundo.
Ao colocar em interseção Freire, Bachelard/Bertoche, Han e o tópico e submodo
Epistemologias, preserva-se um eixo comum: não há trabalho filosófico-clínico sem
diálogo, sem interseção e sem a disposição de revisitar, com cuidado e rigor, a
pergunta: “como sei o que digo que sei — e como esse modo de saber está afetando
a minha vida e as minhas relações?”.
E talvez, nesse movimento de revisitar as próprias certezas, ressoe a esperança de
que fala Byung-Chul Han: não um otimismo cego, mas uma força ativa, uma abertura
ao desconhecido e ao que ainda está por vir. Pois conhecer, em sua raiz mais viva,
não é fixar-se no já sabido, mas permitir que o intelecto se deixe arejar pelo que ainda
não foi vivido nem pensado — um gesto de coragem que é, ao mesmo tempo,
epistemológico e existencial.
————————————–
*Texto re-elaborado pela/o filósofa/o clínica/o Maria Sílvia Abrão e Paulo R. Grandisolli, baseado na
transcrição de aula de 20/5/26, do Curso de Formação em Filosofia Clínica, Turma 2025/27,
“atravessado” pela ideia de “medo”, de acordo com a obra O Espírito da Esperança, de B.-C. Han.
**Utilizamos recurso do Chat GPT-5.1.
BERTOCHE, G. Realidade e Realização – A Dialética do real na epistemologia de Bachelard.
Teresópolis. Cogitamus. 2019.
HAN, B.-C. O Espírito da esperança: contra a sociedade do medo. RJ. Vozes. 2024.
FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? Paz e Terra, RJ, 2013
