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Reflexões sobre a relação humana e as novas linguagens

Tatiana Borges Carvalho

4 de setembro de 2026

A existência humana sempre passou por profundas mudanças e transformações. Várias foram as invenções e descobertas (invenção da roda, da prensa rotativa de Gutenberg, rádio, cinema, televisão) até chegar em nosso tempo com a hipermídia e a IA. Sendo assim, podemos perceber que a tecnologia não é uma novidade. Ela não apareceu em um piscar de olhos ou estalar de dedos, como mágica. A condição tecnológica em primeira instância é criada para suprir necessidades humanas nas mais variadas áreas. Portanto, a presença humana é parte importante desta construção — penso que a mais importante, pelo menos por hora. A maioria de nós talvez não tenha percebido que já estávamos sendo preparados para esse acontecimento há muitos anos e séculos atrás. O marco de todo esse processo foi o advento da internet e o que vem atrelado a ela.


Nossas vidas ditas “reais” migram para um outro lugar, uma outra realidade. As sociedades “reais” passam a ser digitais. Todos os problemas vivenciados na sociedade “real” migram para a sociedade digital. Esta sociedade, ainda em construção, apresenta falhas (como qualquer sociedade) e também divide, atravessa nossa existência. Ainda há um grande conflito existencial com relação à linguagem e às formas de ser e existir. Por exemplo: a maioria dos nativos digitais não possui os mesmos signos que as pessoas que nasceram antes da era digital.


A tecnologia digital vem possibilitando novas formas de criação, linguagens e consumo. Ainda estamos diante de um momento de adaptações e readaptações.


Trouxe esta pequena e simples introdução para contextualizar a presença de novos universos e línguas diferenciadas que podem ser apresentadas na clínica. Estamos diante de partilhantes com novos signos (semióticos). São partilhantes com novas concepções de mundo, de sentimentos, pensamentos, de tempo, espaço, crenças e valores totalmente diferentes. Mas essa diferença é muito marcante e significativa, difere das anteriores.


Contas bancárias, documentos, cartões, redes sociais, planilhas de trabalho, bloco de anotações, medidor de pressão arterial, controlador para internet das coisas, livros e uma infinidade de funcionalidades que não estão à parte de nós. Todos estamos conectados de alguma forma. Alguns menos imersos que outros, mas conectados. Porém, como todas as experiências humanas, existem aspectos positivos e negativos. São tão marcantes essas transformações que levam a questões existenciais de outras ordens.


Pessoas que não conseguem se encontrar profissionalmente, que têm dificuldades em se relacionar ou encontrar um(a) parceiro(a) fixo(a), que se sentem excluídas digitalmente, e várias outras questões. Penso que a Filosofia Clínica é uma das poucas terapias — talvez a única neste momento — que traz em sua singularidade a possibilidade de dialogar de forma construtiva e acolhedora com as novas formas de ser. Diante de um mundo repleto de alternativas, as opções certo ou errado, sim ou não, claro ou escuro já não fazem tanto sentido para alguns... há muito mais...


Penso que o conceito de Rizoma, desenvolvido pelos filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs (1980), propõe uma forma de organização do pensamento e da realidade que desconstrói as estruturas hierárquicas e binárias tradicionais. Deleuze e Guattari utilizam essa ideia como uma espécie de contraconceito para descrever sistemas de pensamento, conhecimento e sociedade que não seguem uma estrutura linear ou hierárquica, mas que se expandem de maneira múltipla e interconectada.


A teoria do Rizoma cai como uma luva para os nossos dias e pode contribuir de forma significativa para a compreensão de novas estruturas de pensamento. É muito importante que nós, filósofos e filósofas clínicas, estejamos sempre atentos(as) às mudanças, abertos(as) e prontos(as) para as novas formas de aprendizado, linguagem e comunicação.


Diante disso, como acolher partilhantes que têm sua existência quase que total nas sociedades digitais? Será que estamos prontos para compreender quando um partilhante sente que está sendo traído(a) mesmo que de forma virtual? Como faremos quando acolhermos pessoas que se relacionam através de aplicativos de relacionamento e deram um match? Como compreender quando alguns jovens se sentem mais à vontade em socializar nas redes do que fisicamente? Como compreender quando, em atendimento, alguém diz que está passando por um ghosting ou está sendo stalkeado? O ser humano e a tecnologia estão em um momento de simbiose, em que não há possibilidade de separação. A cada queda de bateria de um celular é um momento da vida que vai se esvaindo. Para muitos, a vida está toda dentro daquele aparelho. Eles são extensões de nossos pensamentos, sentimentos, memória e consciência.


Falar a mesma língua daquele(a) que vem até nós é um profundo ato de amor, pois nos aproxima do universo que se apresenta e nos ajuda a caminhar de forma mais segura ao lado de nossos partilhantes.

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