
Filosofia Clínica – Terapia como espaço criativo
Tatiana Borges Carvalho
28 de setembro de 2024

Certamente muitos de nós já ouvimos comentários do tipo: Terapia para quê? Terapia é para quem tem algum problema. Em alguns casos as adjetivações são mais extremas…
Em Filosofia Clínica os rótulos são desconsiderados em respeito ao partilhante. Uma pessoa não deve ser definida por algum tipo de diagnóstico. O ser está para além de rótulos e diagnósticos.
Gostaria de convidá-los a refletirmos juntos sobre as colocações acima.
Permitam-me compartilhar de forma mais resumida duas belas partilhas ocorridas durante alguns encontros terapêuticos. São trechos resumidos de encontros com dois partilhantes: Denise e Pedro (nomes fictícios).
Denise
Denise foi casada por 20 anos e sempre teve sua própria renda (dividida entre a aposentadoria e, vez por outra, artesanato), quando casada, os custos fixos da casa ficavam por conta de seu companheiro. Após a separação ela se viu sozinha, tendo que retornar a residir em um local indesejado que trazia lembranças não muito positivas de sua infância, mas não havia escolha, por ora seria o melhor a ser feito. A partir deste momento, a relação com seus filhos, amigos e familiares sofrerá mudanças. Dentre todas as mudanças, a forma de lidar com uma em especial será determinante em suas novas escolhas, buscas, objetivos, modos de ser e lidar com situações. Agora ela contava apenas com sua aposentadoria, precisava ter outra fonte de renda e assim ter mais tranquilidade. Neste período de inversão a partilhante é deslocada de seu atual lugar existencial e alguns pensamentos e sentimentos vem à tona como: “será que eu ainda amo ele? Se eu estivesse com ele não estaria passando por isso! Todos os nossos amigos comentam, até plano de saúde eu tinha!” Ela é tomada por um sentimento de incapacidade total. Como estamos juntas nessa caminhada há um longo tempo e temos muitos princípios de verdade que contribuem positivamente na terapia e, com base na historicidade desta partilhante, senti que possivelmente ela não estava arrependida de ter se separado ou que ainda amava o ex companheiro, mas que se sentia dependente financeiramente dele e a partir de agora teria que encarar este novo momento. Fomos dialogando, caminhando e o melhor para ela acontece: Denise passa a entender e sente que estava com medo de encarar a sua própria existência (nova), existir por ela e para ela, com seus modos, olhares, entendimentos, valores…. Busquei em sua história a lembrança do crochê, de como ela dizia ser algo prazeroso e tranquilizador. Ela dizia que a cada ponto esquecia dos problemas, não sentia o tempo passar… a lembrança se tornou viva e então surge a possibilidade do crochê como a renda extra que tanto buscava! Trouxe este trecho da historicidade desta partilhante para pensarmos juntos sobre como a terapia pode ser um lugar de possibilidades criativas!!!! Ela está feliz, realizada, segura, em paz consigo e nas relações.
Nem sempre a busca pela terapia terá um assunto imediato, algum tipo de problema psíquico ou psicológico. Alguns buscam a terapia para partilhar suas ideias ou ter ideias, criações, alegrias, tristezas, conquistas ou apenas para bater um bom papo. A terapia é um lugar em que cada pessoa pode se expressar sem ser julgada. Na metodologia proposta pela Filosofia Clínica aprendemos a suspender os juízos diante de nossos partilhantes. A escuta deverá ser pautada pelo respeito à singularidade de cada ser, acolhimento amoroso e ético. Este processo de troca entre o filósofo clínico e partilhante pode ser profundamente construtivo para ambos. Importante lembrar que as formas que buscamos para auxiliar nesta construção sempre é baseada na historicidade. A forma que a clínica será conduzida dependerá desta singularidade. Assim, foi identificado em Denise que utilizar a produção do crochê para venda seria importante não só pelo aspecto material, mas também subjetivo e existencial.
Pedro
Pedro era um jovem que sonhava em ser um grande artista, mas que se via obrigado a trabalhar de forma convencional por motivos familiares. À medida que os encontros foram acontecendo ele teve uma lembrança de quando era jovem e havia ganho um concurso de desenho. A terapia foi extremamente importante na reconstrução de seus processos criativos e consequentemente existenciais. A cada partilha finalizada ele se sentia inspirado em escrever mais e mais… e o desejo de viver como artista foi tomando conta de seu ser ao ponto de começar a criar planos para que esse sonho fosse realizado.
Caros leitores, através das partilhas acima observamos que a terapia pode ser um lugar de transformação interior e possibilidade criativa. Faz-se necessário educarmos nossos pensamentos, desconstruirmos certos conceitos sociais que impeçam ou reduzam as possibilidades de conhecer a si mesmo e sermos quem desejamos ser!
A Filosofia Clínica está aberta a todos que desejam passar por esta bela vivência interior!!!
