
Expectativas
Tatiana Borges Carvalho
4 de setembro de 2026

Hoje gostaria de convidar vocês a refletirmos juntos sobre criarmos expectativas.
É comum ouvirmos frases como:
“Como ela(e) pode ter feito isso comigo, não esperava por esta atitude. Eu jamais agiria assim.”
“Esperei tanto pelo passeio do final de semana, criei tantas expectativas e não aconteceu absolutamente nada do que imaginei.”
“Sempre quis ser médico, mas não consegui realizar o meu sonho. Tive um filho e fiz de tudo para que ele tivesse esta oportunidade. Ter um bom salário e estabilidade financeira. Mas estou totalmente decepcionado. Meu filho quer ser músico.”
As expectativas por vezes estão conectadas com nossos valores, crenças, desejos e idealizações de perfeição que projetamos em nossas relações cotidianas.
Compreender que somos seres humanos falíveis, passíveis de erros e acertos, contribui no processo de aprendizado e deixa a caminhada mais leve.
Quando essas expectativas não são alcançadas, podem vir à tona sentimentos como: desilusão, tristeza, depressão, angústia, ansiedade e vários outros tipos de incômodo existencial.
Com frequência acolho em terapia partilhantes que trazem este assunto por não saberem como lidar com expectativas não alcançadas. Acabam se perdendo existencialmente. Não sabem mais como agir, buscam desesperadamente entender o porquê de as coisas não terem saído como imaginavam ou esperavam.
Somos seres singulares, ou seja, únicos. Mesmo que tenhamos afinidades com outras pessoas, ainda assim não somos iguais. Cada um de nós sente, percebe e pensa de formas muito variadas.
É importante compreendermos que não criamos expectativas apenas sobre outras pessoas ou situações, mas também com relação a nós mesmos. Por vezes nos empenhamos em realizar sonhos que não são nossos, ou a agir de determinada forma para agradar. Isso pode gerar um grande fardo.
Irei partilhar com vocês duas vivências terapêuticas para contribuir na reflexão:
Pedro (nome fictício) — 30 anos
Pedro é casado há 5 anos. Sempre foi extremamente romântico (dentro do que ele acredita ser romântico), lembrando de todas as datas importantes, diariamente fortalecendo o seu amor pela companheira com palavras e bilhetes de "eu te amo"! Seus pais sempre lhe diziam que amor de verdade é assim. Inclusive, ele gostava de postar nas redes sociais os momentos em que sua esposa e ele estavam juntos em passeios ou em tarefas diárias. Pois bem, acontece que a esposa de Pedro não sente o amor dessa forma. No entendimento dela, quando amamos alguém, não precisamos falar todos os dias. Para ela, amar é algo completamente diferente. Diz que amor são atitudes, lealdade, companheirismo — que nem mesmo há necessidade de ficarem se abraçando, se beijando a todo instante ou mesmo postando em redes sociais. Essas diferenças nas formas de vivenciar o amor causaram um pequeno afastamento entre eles.
Pedro vem para a terapia totalmente frustrado, buscando entender o que acontece com sua esposa. Afirma que: “com certeza eu a amo mais do que ela me ama!”
Tivemos uma longa caminhada juntos. Um dos primeiros passos dessa jornada, com muito cuidado e respeito, foi desconstruir os ideais de amor que foram agendados na Estrutura de Pensamento de Pedro. Apresentar a ideia de singularidade existencial, de respeitar essa singularidade em seus modos de ser. Acolher essa singularidade foi determinante na mudança de lidar consigo mesmo e com sua companheira. Aos poucos, o conhecimento sobre outras formas de amar, de demonstrar afeto, carinho e amor foi sendo interiorizado por Pedro. Em sua nova percepção, criar expectativas com relação a outra pessoa e esperar que ela aja da forma que esperamos é uma atitude que viola o direito de cada pessoa ser como é.
A relação de Pedro com sua esposa está mais leve e divertida. Não há cobranças ou expectativas. A cada momento, um novo aprendizado.
Débora (nome fictício) — 45 anos
Débora nasceu e foi criada em uma família protestante e conservadora. Porém, à medida que foi crescendo, sentia que a religião da qual fazia parte não respondia aos seus questionamentos mais profundos. Por volta dos 27 anos, inicia uma busca para se encontrar espiritualmente e encontra um lugar que ela acreditava ser o lugar que definitivamente iria atender às suas expectativas. Pelas suas pesquisas, esse lugar seria frequentado por pessoas muito elevadas espiritualmente, que não se abalavam por situações corriqueiras do dia a dia ou problemas mais sérios. Débora começa a frequentar esse local, se dedica integralmente e realmente se encontra espiritualmente. Tudo caminhava perfeitamente bem até presenciar um acontecimento entre alguns frequentadores do mesmo local que estavam exaltados. Débora fica extremamente chocada, decepcionada e desacreditada. Não conseguia compreender. Na visão dela, eles eram perfeitos......
A terapia tem contribuído para que Débora compreenda que somos imperfeitos, inclusive ela. Podemos buscar melhorar, ter pensamentos e sentimentos mais elevados e sublimes, mas ainda assim poderemos falhar — é uma condição humana.
E você? Como tem lidado com expectativas?
