
Desconstrução
Tatiana Borges Carvalho
28 de setembro de 2024

Primeiramente gostaria de agradecer a todos por dispenderem um pouco de seu tempo nesta leitura. Na realidade gosto de pensar que estamos juntos, em um gostoso bate papo, em que ideias fluem e experiências são trocadas.
Irei compartilhar um pouco mais de minhas vivências como Filósofa Clínica no acolhimento de partilhantes. Em meus textos, busco me distanciar um pouco de terminologias acadêmicas ou nomenclaturas da Filosofia Clínica e assim me aproximar de outros universos e realidades.
Diversos são os motivos pelos quais uma pessoa busca pela terapia, mas hoje gostaria de falar um pouco sobre os aspectos negativos das convenções sociais e como elas podem afetar nosso desenvolvimento.
Nascemos e a partir deste momento nos tornamos parte da sociedade. Somos educados por nossos pais, familiares, escola, etc. Somos fragmentos de valores e crenças que não partiram de nossas próprias escolhas. Para algumas pessoas está tudo certo! Não há incômodos, inquietações ou buscas e elas devem ser respeitadas. Porém para outras é completamente diferente. Essas pessoas sentem-se incomodadas e decididas a mudar algo, mas nem sempre sabem por onde começar, gerando uma grande crise existencial.
Durante o caminhar terapêutico, após termos realizados todos os procedimentos necessários, sempre com muito amor e ética, o(a) partilhante vai ganhando confiança em si mesmo(a). Aprende a se auto acolher, cuidar de si e ter domínio sobre sua vida, sem ser afetado(a) diretamente pelo meio social. Desenvolve formas de lidar em situações mais complexas com seus próprios modos. As convenções sociais e imposições são descontruídas para que novas construções sejam erguidas.
Irei compartilhar duas experiências clínicas para refletirmos juntos.
Maria (nome fictício) – 30 anos
Criada em uma família tradicional católica, em que sempre foi dito que ela nunca poderia discordar dos pais. Qualquer manifestação de pensamento pessoal ou questionamento eram motivos para apanhar ou ficar de castigo. O pensar e questionar não faziam parte de sua educação, somente obedecer. Ela cresceu, casou e teve uma filha. Porém a criança é extremamente questionadora, envolta a tecnologias etc. Maria vem para a clínica com certo desespero sobre como ter uma relação mais amorosa e compreensiva com sua filha. No caso dela, após profunda análise, foi totalmente necessária a desconstrução dos antigos valores e crenças. A primeira desconstrução foi mostrar que ela poderia falar sobre seus pais sem ser julgada ou repreendida (neste momento, a partilhante inclusive diminuía o tom de voz, sempre que iria contar sobre seus pais, como se eles pudessem ouvi-la). Também foi importante descontruir a ideia de que falar sobre os pais na terapia não significava falta de amor ou falta de respeito.
Valquíria (nome fictício) – 18 anos
Criada em uma família mais liberal, com pensamentos livres, sem convenções sociais. A família tinha seus próprios modos e pensamentos (filha de um artista plástico e uma filósofa). Valquíria podia escolher a cor de seus cabelos, colocar piercings, ter tatuagens, ou seja, sua estética não seguia os padrões convencionais. Seus pais sempre diziam: “Seja sempre você mesma, não mude para agradar alguém ou para se enquadrar socialmente”.
Viviam muito bem financeiramente, porém por motivos de doença, houve uma grande mudança e Valquíria se viu diante de outra realidade. Bem, agora Valquíria estaria diante de umas das decisões mais difíceis de sua vida. Ela busca por um emprego e o encontra, porém no momento da entrevista é imposta a seguinte condição: Valquíria gostamos muito do seu desempenho no processo seletivo, porém para que possamos te contratar você terá que mudar a cor de seus cabelos e retirar os piercings. Quanto as tatuagens, como ficarão cobertas não há problemas.
Ela retorna para sua casa extremamente triste, sentindo-se violentada… parecia que estava sem ar, precisava falar com alguém… em um momento de desespero comenta sobre o acontecido e como estava se sentindo com uma conhecida e recebe a seguinte resposta: Mas Valquíria, é somente um cabelo e um piercing, não é nada demais!!!!!!! Neste momento um sentimento de solidão profunda invade o ser de Valquíria. Ela aceita as condições de trabalho por necessidade, mas é existencialmente destruída. Não era apenas uma cor de cabelo e um piercing. Era sua vida, sua existência, seus valores e crenças mais preciosos. Tudo isso era comunicado através de sua estética, não era apenas uma modinha, um embalo. Foram 10 anos de desconforto interior, perda de si e busca por seu lugar existencial. Na terapia ela pode trazer essas questões e se reencontrar de uma forma linda!
Penso que seja importante compartilhar vivências. Quanto podemos aprender… Através delas temos a oportunidade de refletirmos sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre como podemos acolher e respeitar as singularidades.
Talvez uma das grandes belezas da vida seja sermos quem realmente desejamos SER!!! A Filosofia Clínica é umas das possibilidades que podem contribuir nesta desconstrução/construção de si.
