
Algoritmos e Emoções na Produção da Subjetividade: Uma Perspectiva Clínica
Tatiana Borges Carvalho
4 de setembro de 2026

Vivemos imersos em um universo digital mediado por inteligência artificial e algoritmos, sistemas que aprendem continuamente a partir daquilo que oferecemos: cliques, curtidas, buscas, comentários, tempo de visualização e repetição de padrões. O algoritmo não é neutro: ele devolve, de forma amplificada e organizada, aquilo que recebeu. Assim, o que eu dou ao algoritmo influencia diretamente o que ele me devolve, criando ciclos de retroalimentação que impactam sentimentos, pensamentos, comportamentos e estados emocionais.
Quando somos expostos repetidamente a determinados conteúdos, narrativas ou padrões, nossas estruturas cognitivas tendem a se fortalecer naquela direção. Emoções como ansiedade, inadequação, comparação, raiva ou necessidade de validação podem ser estimuladas sem que percebamos conscientemente. A exposição contínua a conteúdos idealizados, narrativas polarizadas ou discursos de alta carga emocional pode contribuir para o agravamento de quadros de ansiedade e depressão, especialmente quando o sujeito passa a regular suas emoções predominantemente a partir da validação externa oferecida pelas redes sociais.
A necessidade de compartilhar o dia a dia — rotinas, conquistas, sofrimentos, imagens do corpo, relacionamentos e opiniões — pode funcionar como tentativa de pertencimento, reconhecimento e regulação emocional. Contudo, quando essa necessidade se torna compulsiva, ela pode reforçar dependência de aprovação, fragilidade identitária e ativação de esquemas desadaptativos, como abandono, desvalor ou busca excessiva por aceitação. O que se compartilha alimenta o algoritmo, e o algoritmo devolve narrativas que reforçam esses estados internos.
A partir deste ponto, compartilho brevemente uma experiência clínica que inspirou a escrita deste texto. Em uma sessão, foi partilhada a seguinte fala: “Nossa, sempre aparecem as mesmas coisas para mim e são coisas que não me fazem bem. Muitas dessas postagens me levam para um lugar que eu não quero mais estar, um período muito doloroso que ficou lá atrás. As postagens acabam me fazendo reviver esses momentos novamente”. Diante disso, e já tendo conhecimento do histórico da pessoa, perguntei o que buscava nas redes, quais hashtags utilizava e que tipo de conteúdo costumava consumir, para que fosse possível orientar escolhas mais conscientes, inclusive sinalizando às plataformas desinteresse por determinados temas.
Dentro desse ecossistema, as hashtags exercem papel central. Elas não são apenas marcadores temáticos, mas dispositivos simbólicos e técnicos de classificação, visibilidade e pertencimento. Ao utilizar uma hashtag, o sujeito ensina ao algoritmo como deseja ser lido, a quais comunidades simbólicas pertence e quais discursos reforça. Hashtags conectam pessoas, mas também organizam bolhas de sentido, limitando a diversidade de perspectivas e reforçando padrões emocionais e cognitivos repetitivos.
O aprendizado de máquina ocorre por meio da identificação de padrões comportamentais. A inteligência artificial não compreende emoções, mas detecta correlações: o que gera engajamento, o que mantém atenção e o que provoca reação. A partir disso, ajusta recomendações e entrega conteúdos cada vez mais alinhados aos estados emocionais previamente demonstrados. Quanto mais automática for a interação, mais o sistema aprende a reforçar conteúdos que ativam emoções intensas, aprofundando ciclos de ansiedade, ruminação e humor deprimido.
Essas transformações dialogam diretamente com o pensamento de Lúcia Santaella, que compreende as tecnologias digitais como parte de uma ecologia comunicacional complexa, na qual humano e máquina se influenciam mutuamente. Em Culturas e artes do pós-humano (2003, p.110–115), a autora discute como as tecnologias deixam de ser apenas ferramentas externas e passam a integrar processos cognitivos, afetivos e perceptivos do sujeito. Já em Linguagens líquidas na era da mobilidade (2007, p.28–34), ela aponta que as mídias digitais remodelam formas de atenção, percepção do tempo, construção de sentido e modos de subjetivação.
Nessa perspectiva, os algoritmos participam ativamente da produção de subjetividade. Eles influenciam a forma como pensamos, sentimos e nos narramos, atuando como mediadores simbólicos entre o sujeito e o mundo. A exposição repetida a determinados conteúdos fortalece estruturas de pensamento, ativa submodos específicos — como o crítico interno, o impulsivo, o evitativo ou o de busca por validação — e pode fragilizar estados mais integrados, como o adulto saudável ou observador consciente.
Na clínica terapêutica, torna-se fundamental incluir o universo digital como campo de investigação. A terapia pode ajudar a transformar uma relação automática e reativa com a tecnologia em uma relação mais consciente, crítica e regulada emocionalmente. Desenvolver consciência sobre o que se compartilha, o que se consome e como isso alimenta o algoritmo é também um exercício de autonomia. Como sugere Santaella, compreender a lógica das máquinas é uma forma de não sermos completamente governados por elas.
Assim, o trabalho terapêutico pode contribuir para que o sujeito recupere o protagonismo sobre seus pensamentos, emoções, comportamentos e relacionamentos, mesmo inserido em sistemas algorítmicos complexos, transformando o ambiente digital de um fator de adoecimento em um espaço possível de escolha, limite e cuidado.
