Quem? O sentido da Autogenia

Autogenia. Uma aproximação da questão: “quem é esta
pessoa”

Autogenia  não é uma
palavra corrente, na filosofia, na clínica e, pouco usada nas ciências,  daí ser prudente defini-la  para os propósitos deste texto.

A palavra grega “auto” traz o sentido daquilo que é
próprio e, “genos”- também do grego
– o de origem ou nascimento. De maneira simples, autogenia pode ser entendida como a qualidade daquilo originado por
si mesmo, independente de força ou recurso externo a si.

E como essa palavra autogenia participa no mundo  da filosofia clínica?

Autogenia
pode ser considerado como um retrato existencial desta pessoa à frente do
clínico. Como ela se constituiu, se tornou o que é.  Ela se vincula a uma idéia de totalidade da
pessoa, próxima de certa forma da noção de personalidade ou de caráter usado
pelas psicologias e por algumas psicanálises. Na filosofia clínica ela deve ser
resultado de um minucioso processo de construção, sempre vivo e reconstruído. Autogenia se aproxima de uma questão
muito esquecida e fundamental da clínica: quem
é essa pessoa
que está aí? Questão filosófica vivida na clínica.  

Heidegger ao tomar como tema o quem, escreveu: “é cada vez um eu e não
algo distinto” (Ser eTempo pg 333). “Cada vez um eu”, portanto, um “eu”, um
alguém que muda a cada vez que é observado e simultaneamente “não algo
distinto”, isto é, um algo ou alguém que não é diferente de si, que é o mesmo.
Nessa tensão entre mudança (Heráclito) e permanência (Parmênides) estaria o
lugar para alguma consideração da questão quem
é essa pessoa
, esse ser-aí, à frente .

Quem?
“Cada vez um eu e não algo distinto”.

Mas o que é“eu”? É uma palavra que
se refere a quem fala, designa a pessoa que enuncia. Mas não a descreve, não dá
qualquer predicado dela.  Na gramática da
língua, “eu” é um pronome, por definição, algo que vai em direção a um nome,
mas não nomeia uma coisa. Pronome pessoal “eu” só indica a pessoa que fala,
portanto, é (só?) um fenômeno de linguagem. “Eu” se funda, se re-inaugura em
cada fala. Em cada uma, na sua, na minha, na dele. “Eu” existe através da fala
da pessoa que a profere. E, algo – o “eu”- fala por intermédio da pessoa.
Esse “algo-eu” que fala é alguémAlguém
fala: um “eu”. Quem?

 No âmbito existencial o “eu”, na vivência de
uma pessoa, é sempre presente para si.   E também um observador eterno de
si, afinal  sou sempre eu que vejo,
penso, percebo, sinto   “a mim”, “a mim
mesmo”. Então há algo na base do “eu”. O “eu”, entretanto, não é uma coisa no
mundo, um ente. E ao mesmo tempo há um fenômeno “eu” que existe para mim
enquanto eu sou consciente de mim. Então “eu” serve para eu me referir a mim. O
que é  alguém e não se refere a mim não é
“eu”, é “outro”. Eu” é a palavra que 
indica aquele q designa a si na fala.

Quando alguém usa “eu” já traz
também pressuposto alguém diante de si, um tu ou um você.  E pressupõe também um “eu” desse
interlocutor. Eu compreendo quando uma outra pessoa fala “eu”, eu sei  que ela se refere ao “eu” dela, o “eu” do
“outro” que é ela, para mim. Isso, essa compreensão, é condição para a clínica.
Ela e eu, cada um a partir de si, sabe que há um “eu” meu e um ”eu” dela.
Curioso: sabe-se, mas é um saber de natureza frágil, meio por aproximação. Não
há um saber certo, firme, fundado, nisto que é tão comum, corriqueiro, vivido
por qualquer um. Um saber-sabido-desconhecido.

Quem?
Essa pessoa que fala cria um mundo a partir de si. Cada “eu” pode ser definido
razoavelmente  como um centro de
experiências de mundos vividos por uma pessoa e, um centro de perspectivas de
mundos seus a viver. O clínico – este “eu” que escuta – deixa este mundo do
outro “eu” se estabelecer próximo a si. Talvez o lugar propriamente em que esse
mundo do outro “eu” se estabelece é na interseção  entre estes dois “eus”. A clínica se dá
entre.

A pessoa não é um conteúdo do mundo
que cria, ela é a referência, a base, o ponto de apoio. Mesmo frágil.  Esse “eu” fala algo, aqui e agora para um
outro “eu” aqui e agora, que escuta, cada qual numa posição insubstituível. A
pessoa que traz o seu mundo é um limite desse seu mundo, não está dentro nem
fora desse mundo. Não está dentro porque está aqui “fora” falando e não está
fora porque fala de “dentro” de si, a partir de seu “eu”. Como um “eu – criador”
está no limiar, entre o dentro e o fora [como notou  Wittgenstein]. No mundo existencial, não há  sujeito, nem objeto. Não há objetivação
possível do sujeito.

Quem?  A pessoa não é somente esse “eu” que fala:
ela se compõe de uma corporeidade. Ela também é um corpo. Ela existe também num
âmbito material. E cada pessoa tem um corpo diferente da outra.  Se ela e só ela pode se identificar com o
corpo que ela habita, então este corpo é seu, só seu: este corpo é o lugar do
seu “eu”. Compõe o “eu”. E, alem disso, o meu corpo, desse outro que sou para
ela, pode ser entendido por ela como “eu”. 
Em outras palavras, do ponto de vista espacial, o corpo como critério de
identidade do “eu” parece dar uma resposta mais firme. Ao menos para um
universo cultural tomado predominantemente 
por critérios materiais A pessoa parece poder ser identificada pelo seu
corpo. E assim se faz socialmente. A sua identidade é atestada pelo
reconhecimento do desenho de seus dedos. A convicção inquestionável da
singularidade dos traços corporais está aqui pressuposta.

O corpo ainda responde a um outro
critério importante de identidade da pessoa que é a possibilidade de ser
reconhecível pelos outros. Este corpo que contém um “eu” pode ser percebido em
dois momentos diferentes  e ser considerado
ainda como a mesma pessoa. Há uma permanência, ainda que provisória da
fisionomia da pessoa, por exemplo. A pessoa passa a ser reconhecida por aquele
rosto ou por aquele corpo que trans-porta esse “eu”. O curioso é q muitas
vezes, encontra-se  alguém que se
reconhece não por seus traços físicos, mas pelo seu jeitão, por uma expressão,
por um sorriso, pela voz, pelo seus modos de se movimentar, um modo de olhar.
Pela voz.  Mas de qualquer forma o corpo
como critério de identidade parece funcionar razoavelmente, para as
necessidades das relações sociais. 
Mas…

Quem
é essa pessoa? “Cada vez um eu, não algo distinto”.

 O mesmo algo, aquilo que não é diferente, que
parece repetir um conhecimento que já se teve. Nesse lugar incomum, difícil de
perceber, que é a cada vez de um modo e que permanece com alguma propriedade
comum, parecida. Daqui não se pode falar que é o mesmo – já que de cada vez é
um “eu” – e que ao mesmo tempo mantém alguma coisa que lhe é própria, e pela
qual pode ser reconhecida,  o corpo.

Quando eu me refiro ao “meu” corpo
eu tenho uma referência de um mundo em que há outros corpos.  Foi na minha relação com outro corpo q eu
pude constituir a idéia de um corpo meu. Este movimento de me constituir como
um corpo diferente, me possibilita e me exige ver a mim quase como um terceiro,
isto é, de “eu” através da percepção de um “outro”. Mas como sou “eu” que
indico a mim mesmo esse “eu”, há um movimento reflexivo, quer dizer, há um
desvio da minha direção inicial – indo em direção ao outro – que me faz voltar
para trás, me faz recair em mim [esse “mim” é um pronome obliquo reflexivo da
1ª pessoa do singular- refere-se a “eu”, mas não é “eu”]. Há quase um olhar em
terceira pessoa para o meu “eu”, mas um olhar que também não se realiza plenamente,
ou pelo menos que me dá pouca possibilidade de alteridade (externalidade?)
desse “eu”, que me permitisse perceber esse “eu” como a um estranho.   Mas isso não se realiza porque o “eu”
permanece em meu corpo e me percebo como uma única pessoa. E sou eu que digo
“eu”.

A reflexão do parágrafo anterior
está no campo do pensamento clínico, tem sua referência  no âmbito existencial e não epistemológico.

Quem?
A noção de pessoa se constitui a partir dos predicados que se atribui a
ela.  Na cultura ocidental contemporânea
os predicados mais aceitos são os de que uma pessoa é composta de um aspecto
físico e outro espiritual ou psíquico. Quando se está frente ao corpo de alguém
morto, por exemplo,  há algo da pessoa
presente e algo ausente. A pessoa não está mais ali, só seu corpo. O corpo, uma
coisa no mundo, mas ainda como memória do ausente.  A pessoa na sua inteireza material-psíquica
tem como sua natureza, portanto, o  estar
presente, ser presença. Mas isso não a predica, não fala nada dela.

Quando se busca a identidade da
pessoa –  ela como idêntica a ela mesma –
surge de novo a dificuldade. Cada pessoa é um “eu” distinto num corpo distinto.
O que distingue um corpo de outro é sua aparência física, seu volume, suas
formas que se conhecem a partir da percepção. Mas como distinguir as
características psíquicas de uma pessoa?

Na clínica a pessoa se encontra numa
situação em que fala e escuta  e é ouvida
por outra pessoa que também fala. Nessa circunstância ela usa a língua e vários
recursos de linguagem para expor para alguém, de algum modo presente, as suas
experiências. Uma situação de interlocução que tem valor de instituição de
acontecimento. Está em cena, através de um discurso, corpo e psique frente a
corpo e psique, alma, carne e osso, ainda que mediada por aparelhos
(plataforma, internet, celular) trazendo a sua experiência do mundo, sua
perspectiva, q não pode ser substituída.

Quando eu digo “eu estou feliz” não
é a mesma coisa do que se eu dissesse “a pessoa q está falando está contente”.
Há um ponto de referência diferente: quando eu digo “eu” estou dando o ponto de
referência, tem um certo peso existencial, 
no outro caso eu sou descrito como uma 3ª pessoa, quase não é uma
pessoa.  Quem é essa pessoa? Como predicá-la? Como estabelecer suas
propriedades, o que lhe é próprio?

Mas isso ainda está muito vago. O
que é isso – o “eu” – que eu sei q existe porque vivo em mim e percebo viver no
outro?  Eu sei que o que vivo em mim é
diferente do que ele vive nele. Então há algo de próprio neste “eu” meu e no
“eu” dele, do outro. Há uma diferença entre ele e eu.  Há um próprio a mim e um próprio a ele. Como
se produz isso que é próprio a cada um? Como se deram essas Autogenias?

O recurso
chamado EP

A Filosofia
Clinica busca enfrentar esse desafio através de um artifício próprio, de um
elemento simbólico, chamado de “estrutura de pensamento” – “EP”. Ela tem uma
natureza operatória. A grosso modo ela pode ser vista como um modelo, um
“artifício de montagem”, que facilita formar um quadro para o clínico dos modos
constitutivos dessa pessoa, de forma explicitamente aproximada, com alguma
estabilidade. O sentido é de um quem  utilitário e não tem nada a ver com um quem ontológico (que estabeleceria o
ser dessa pessoa) .

Ao
criar uma certa permanência artificial, a EP possibilita ao clínico um certo
afastamento da experiencia imediata da escuta vivida na interseção com o
partilhante. Dá-lhe a oportunidade de pensar, comparar momentos distintos,
observar seus movimentos, fazer relações, formar hipóteses para procedimentos,
planejar ações clínicas. Mesmo quando não está na presença física do “outro”,
do partilhante, pode ainda pensar e refletir, respeitando seu próprio ritmo de
pensamento, numa espécie de “re-escuta”, observando aspectos que talvez lhe
escapariam sem isso. Além disso, permite-lhe, também, criar a possibilidade de
um certo afastamento dos efeitos das suas próprias idiossincrasias, elaborar os
seus preconceitos – específicos  desta
relação ou não.  

Nessa
estabilidade artificial impregnada na EP está uma série de apropriações de
sentido produzidas através da escuta realizada pelo clínico das falas faladas
do partilhante. Ela é um modo que possibilita um afastamento da memória  do vivido, numa tentativa de mantê-la  “presente” em seus sentidos. Isso não é pouco
quando se trata de se aproximar do que é próprio a essa outra pessoa.

Quem? Talvez não
seja conveniente pensar a EP como uma “representação da pessoa”.
Representação  tem sentidos bastante
vinculados a certas tradições filosóficas, não sendo recomendado, aqui,
utilizá-la para evitar más interpretações. Será melhor caracterizar a EP de
modo menos preciso, mais aberto e próximo de seu próprio sentido, como sendo “o
jeito da pessoa”, ou “o modo como a pessoa está existencialmente no ambiente” .

O
conhecimento de uma EP será sempre “trabalho realizado”, síntese organizada de
observações feitas pelo clinico, a partir de sua relação com essa pessoa que
vem partilhar as suas vivências. Como assinala Lúcio Packter,  ela só poderá ser determinada “após o
exercício existencial da pessoa” [packter; caderno B pg 8] e deve ser tomada
“como um preconceito e não como um a priori”. Não é um saber que venha
constituído por uma razão transcendental ou metafísica. É um registro, em
línguagem própria, do processo autogênico da pessoa. O quem em outra língua.

Um
resumo do processo metodológico de formação da EP mostraria que o partilhante
narra sua história, atualiza suas vivencias, enquanto o clínico busca, pela
escuta, apreende-las, fazendo  uma coleta
do que ouve a partir de categorias, 
aprimorando essa colheita propondo “divisões” temporais na história
narrada e buscando especificar, discriminar o que  lhe permanece obscuro, fazendo processos de
“enraizamento”. Com esse material atualiza, “monta”, constrói,
“preenche”,”encarna” a EP dessa pessoa. Das múltiplas vivencias narradas, de
tudo o que ouve, busca recolher seus sentidos e traduz, canaliza, traz para
dutos pertinentes, para colocá-lo em modos que facilitem a absorção  pela EP.

A EP só
estará constituída quando já estiver estabelecida como uma totalidade. E, como
qualquer totalidade, a EP é composta de elementos – os “tópicos” – que se
relacionam e se articulam mutuamente. Cada EP será um arranjo singular de pesos
e importâncias desses tópicos inter-relacionados e de suas possibilidades. Mas
só será EP quando for uma totalidade constituída, ainda que transitória.

Sempre
tomada como totalidade, uma EP tem momentos estruturais que podem ser muito
diferentes entre si. São relações ou arranjos tópicos (autogenias) diferentes
que, às vezes, podem até dar a impressão de se tratar de outra estrutura. Mas é
isso que caracteriza essa própria EP: essas diferenças são apenas a expressão
da variedade de seus modos próprios de existir, e que, precisamente,  a definem e a distinguem.

A um
tempo a EP poderá ser tomada como uma totalidade unitária, como conjunto
e,  de outro como uma série de
totalidades momentâneas, circunstanciadas. Em outros termos, a EP pode ser
tomada sincronicamente: o tópico Autogenia, procura dar conta disto. E pode ser
vista diacronicamente e, então será a vez da Autogenia como submodo. Como
tópico há uma espécie de “congelamento do tempo” enquanto como submodo é “posta
no tempo”. Portanto, na dependência da perspectiva ou do momento de quem
observa, a EP pode ser tomada como uma unidade a ser investigada em suas
relações constitutivas  ou também como
uma unidade a ser investigada em seus movimentos e suas relações com o mundo,
com os outros.

 A EP é este modo muito próprio de exercício
que contribui para a possibilidade de responder 
temporariamente, quem é esta
pessoa. Autogenia, são dois modos de
descrever como se produz esse quem.  E através do tópico Matemática Simbólica
possibilitar modos de mudanças dessa pessoa. Esse quem se tornar um quem
adequado a si. Por seus critérios.


todo um modo próprio de  prática
clínica  a partir da Autogenia. Aqui é pressuposto sempre não perder o sentido da
própria idéia de Autogenia desenvolvida
acima, e as reflexões sobre o “eu” e ainda a natureza da EP. Isso não foi feito
por acaso. Em outras palavras, manter presente a idéia de que o que se está
fazendo é co-laborar com o modo singular desta pessoa se mover, gerar a si
própria, tornar-se o que está sendo, o que quer vir-a-ser. Esse movimento
envolvendo seu ter-sido, seu vir-a-ser, sua presença.

A matemática
simbólica

A
EP  não é uma forma que o clínico
possa  perceber por seus recursos
perceptivos ou sensoriais,  e também não
tem uma essência que seja possível 
apreender por meio do entendimento. A sua natureza seria mais próxima do
campo dos símbolos. Eis porque Matemática Sinbólica. Na descrição
disponível,   “o conjunto simbólico que
tem por função ir desfazendo a linguagem verbal…e [que] gradativamente
associa e substitui o atendimento verbal por outro que utiliza equações e
conceitos” [pg 9 do Caderno de Mat Simbólica].

Pelas
dificuldades do autor, talvez isto fique melhor expresso dizendo que a Matemática
Simbólica é um outro modo de exercer a Filosofia Clínica, tomando por base a Autogenia já realizada de uma EP,
reduzindo a ênfase da linguagem verbal, aumentando a importancia de outros
recursos simbólicos. Vale dizer, tomar a pessoa como um todo e, a partir desta
perspectiva, acompanhar suas relações existenciais com os outros, com as
coisas, com as suas circunstancias.  

 Este modo de clinicar permite pensar a EP de
alguém como um modo mais qualificado de “eu” – porque ela é passível de
predicações existenciais. Não se predica a pessoa, mas esta espécie de símbolo
dela, com elementos (predicados) existenciais. 
Observar a EP de alguém é acompanhar um modo  que tem uma boa dose de  verossimilhança com as suas – da pessoa
–  próprias vivências  existenciais, sem contudo confundi-las – a
pessoa e sua EP.   A EP tem seu
movimento, é informada e constituída pelo que a pessoa  experimenta, mas não é ela, não se funde com
ela. É apenas  um artifício, um símbolo
generalizante dela.  Esta abordagem é um
modo clínico possível na Filosofia Clínica, que nasce e se realiza precisamente
a partir das possibilidades abertas pelas características do tópico Matemática
Simbólica. E será avaliada, caso a caso, pelo clínico, a oportunidade de seu
uso. Ela  pode ser uma via para trazer
bons resultados, frente aos Assuntos trazidos pelo partilhante.

Esse
alguém que vem à clínica tem a sua
constituição, sua composição existencial própria, que faz ele ser  como 
ele é. A composição dos tópicos na sua EP, como eles se interligam entre
si, e quais são e quais não são importantes define sua Autogenia [como tópico]: aquilo é próprio a si e a origem dessa sua
propriedade.  A EP busca trazer o que é o
mais próprio dessa pessoa,  em uma
dimensão diferente, virtual, em que se pode compreender as origens dessa
composição existencial que é só sua, diferenciando ou aproximando de outros
momentos estruturais de sua vida.  A EP
dessa pessoa anos atrás pode ter tido uma configuração quase irreconhecível,
frente ao que apresenta hoje. ´

Num
exercício de imaginação seria possível notar como as circunstâncias vividas
nesse período alteraram sua EP, sua Autogenia,
compuseram suas muitas configurações autogênicas. Alguns tópicos perderam a
importância relativa que tinham e deram espaço para a proeminência  de outros, de novas relações, variações,
surgindo arranjos, inter-relações muito diferentes. Mas suas configurações
sempre são próprias, sempre são suas, como modos de se relacionar com os
assuntos que tratou e cuidou nesse período, o jeito que se relacionou  com o tempo, os lugares existenciais em que
habitou, as coisas, as pessoas com que conviveu. E sempre foi ela quem gerou
isso que ela foi sendo. Suas diversas autogenias, nestes anos. Com algum grau
de independência de sua vontade, de sua consciência, de suas intenções. 

A
pessoa deixa de ser propriamente ela mesma quando age de modo diverso daquilo
que parece lhe ser próprio? Mas este modo que parece impróprio, inautêntico,
não é propriamente aquilo mesmo que lhe é próprio? Há estado de
inautenticidade, do ponto de vista estritamente existencial? Este é um aspecto
que pede muita discussão. Não é, entretanto, o tema deste texto. Fica a
provocação.

Um certo modo de exercício

Um
exercício imaginário que se poderia fazer seria observar como a  EP de alguém 
se relacionou com os infindáveis contextos em que a pessoa  esteve envolvida. Como foi que se comportou,
se movimentou? Talvez tenha havido momentos de intenso constrangimento, em que
a sua sobrevivência física ou de algum de seus próximos foi quase que a sua
única preocupação. E outras em que numas férias naquela praia, caminhando plena
de um vazio aconchegante  reencontra
inesperadamente aquela que foi e virá novamente a ser sua grande companheira de
trocas existenciais.

Nessas
2 circunstancias tão contrastantes como foi sua relação com sua consciência,
com seus impulsos? Deixou sua EP, por si só procurar seu caminho ou havia
intenção, vontade nisso? Confiou em seus recursos desconhecidos, não racionais,
inconscientes?   E o clínico que a
acompanhava, com o que podia contar?

A
Autogenia oferece  um modo característico e diferente de  prática clínica. Para não perder  o seu sentido é importante o leitor ter em
mente  as reflexões sobre o “eu”e , a
natureza da EP, desenvolvidas anteriormente. Isso não foi feito por acaso. Em
outras palavras, fique sempre conectado com a idéia que o que se está fazendo é
tentar descrever um modo clínico que não deixa de lado a questão: quem é essa pessoa, autogenicamente.
Como o clínico pode co-laborar com o modo próprio dessa pessoa se mover, fazer
a si, tornar-se.

Este
é um campo com poucas referências. Sem certezas. Com o que se pode contar
talvez seja esse movimento que envolve seu ter-sido, seu vir-a-ser, sua
presença. E será por isso que a atenção para os contextos vividos pela pessoa
são tão importantes.  Perceber qual é o
momento vivido, quais suas bases categoriais, quais são seus vizinhos, que
papel exercem em sua vida. Hstoricidade, bases categoriais.

Esta
pessoa talvez tenha se dado bem em algumas circunstancias  “ao se jogar” ao que lhe fazia sentido, mesmo
com ampla resistência das pessoas com as quais convivia. Havia só umas poucas
que apoiavam seu movimento.  Foi muito
expressiva sua experiência de se lançar ao desconhecido, sua vida se modificou,
passou a viver uma ampliação de horizontes com que nunca sonhara.

Para
o clínico essa pode ser a tarefa. Pesquisar como ela fez em outros momentos de
sua vida e quais elementos foi possível perceber no processo de historicidade
que trouxe esses elementos. Às vezes  é  possível retomar algum momento, conversar um
pouco, rememorar, desdobrar aspectos ainda pouco claros, trazer recursos para
fortalecer seus vínculos com novos vizinhos, buscar composições com elementos
que estejam no horizonte de possíveis. Reparar como foi para ela as
experiências passadas, perceber se ela coloca mais atenção nos ganhos  possíveis ou nas possibilidades de
fracasso.  Ao olhar para trás a pessoa vê
os bons momentos ou o que não quer mais viver. Reparar o que lhe importa nessa
experiência, o que lhe impulsiona, qual o peso de seu desejo, de sua intenção.
Talvez aqui ela não esteja mais “solta”. Sua EP já não estará condicionada. Ao  ter uma intenção, já não tem uma espécie de
pré-controle do futuro?

Ao
imaginar  ir em direção a um ganho autogênico,  não é incomum 
a pessoa já sentir falta de 
pessoas, coisas, hábitos,  por
antecipação.  E aqui, também, quando ela
começa a pesar perdas e ganhos, já volta a uma predominância de referências
estabilizadas, fazendo uma espécie de contabilidade existencial. Muito
razoável, no mundo estabelecido, porém, talvez contraproducente no universo das
Autogenias com movimento verticais.
Esse é um  movimento característico de
autogenia horizontal.

A  pessoa em movimento vertical ao conseguir
atingir certos estágios  autogênicos [na
Filosofia Clínica esses “estágios” são chamados de “patamares”, para evitar a
idéia de sequencia]  e  passar a viver num ambiente bem diferente
daquele que vivia,  pode  ser que 
sofra pela falta da vizinhança com a qual tinha grande familiaridade. O
surgimento de novos vizinhos, novos hábitos, novos lugares com que ainda não
tem familiaridade pode ser temporariamente difícil.  Nesses movimentos alguns elementos de sua
base original podem se refazer no novo ambiente, mas isso nem sempre é
assim.  Pode se formar  uma nova turma, uma nova família, mas, pode
ser que isso não aconteça  e a pessoa
continue fixada no momento  existencial
anterior.

Para
poder lidar com isso o clínico ao acompanhar os movimentos da pessoa deverá
estar especialmente atento à importância que vinha sendo dada às suas novas
vizinhanças. Este é um modo em que é possível estar próximo das novas
circunstancias vividas e poder perceber como as coisas estão andando, com quem
ela está se relacionando, de que modo e assim por diante. Algumas vezes a
pessoa ao mudar de patamar autogênico, mantém relações com seu ambiente
anterior, porém, não é raro que a maneira como essa relação passa a se dar, se
modifica. Se antes havia uma identificação de papéis existenciais, por exemplo,
é possível que isto desapareça, mas que a relação de amizade, por conta de
outros atributos da relação – como a memória de emoções vividas – se
refaça. 

Certamente
haverá muita incompreensão de parte a parte quando buscar argumentar ou decidir
algo já a partir de seus novos modos de ver, e se defrontar com aquele
ambiente, que continua a operar nos moldes anteriores. Querer permanecer
obedecendo aos mesmos critérios e obter aquilo que só está disponível em outro
ambiente que tem suas próprias regras é algo com pouca probabilidade de bons
resultados. Não dá para mudar permanecendo onde se está, existencialmente.  Os livros de auto-ajuda, algumas linhas de
terapia de base comportamental vendem essa ilusão:  seria possível mudar seu comportamento sem todo
um movimento existencial complexo, que implica perdas, riscos etc. E é por isso
que as mudanças provindas desses recursos são só temporárias. Quando
chegam  as exigências dos novos lugares
existenciais, não há força, critérios desenvolvidos, convicções amadurecidas,
sentidos experimentados e conectados com os processos autogenicos .Não se
alterou o modo de produzir a si próprio. 

Na
Filosofia Clínica a aproximação feita pelo clínico aos mundos da pessoa é feito
via EP, espécie de consolidação simbólica dos principais traços provindos da
sua historicidade. E por ela que é possível acompanhar seus principais
movimentos existenciais, seja de crescimento, de queda, de estagnação.  Ao trocar os vizinhos pode ser que esteja
mudando seu patamar autogênico. Às vezes não é isso, mas é apenas  um movimento 
pontual, de mudar certas contingências, certos hábitos, certas relações.
Na clínica o caminhar do terapeuta deve ser sereno e atento.

A
movimentação autogênica pode ser instável. A pessoa pode estar se sentindo bem,
e no momento seguinte está no maior baixo astral, pode estar animadíssima ou
entediada, deprimida ou motivada. O critério clínico será sempre a base
categorial da pessoa, suas tonalidades afetivas predominantes e não  seus estados emocionais atuais. A avaliação
deve ser pela escuta das circunstancias recentes vividas, vinculadas com sua
EP, e não seus “estados”.

Nos
pocessos clínicos exercidos via Matemática Simbólica, no ambiente autogênico da
pessoa, a atenção do clinico deve estar também nos critérios usados pela
pessoa. Não é raro a pessoa  chegar  numa determinada consulta, durante o
processo,  com referencias, valores e opiniões
muito diferentes de seu hábito. Isso pode ser observado comparando o que ela está
vivendo com seus novos vizinhos. Estes são valores, referencias desse mundo q
ela passou a freqüentar ou é parte de um mundo criado por ela. E o clínico deve
reparar também se há uma certa estabilidade nessas novas referências  Quando a pessoa está em mudança pode ocorrer
que  seus parâmetros mudem só
temporariamente. É observando os vizinhos q é possível verificar se a pessoa
está em movimento de criação de “novos mundos” (ascendente, de riscos,
vertical) ou de estabilidade (tranquilidade, segurança, horizontal). Se for um
momento de criação os vizinhos atuais provavelmente não conversam com os
vizinhos anteriores, enquanto q se o movimento for de sossego as referencias
dos vizinhos tendem a permanecer as mesmas. Em certos momentos criativos o
rompimento com padrões anteriores pode ser muito forte a ponto da pessoa eliminar
de sua vida certos elementos que até então eram os mais importantes,  determinantes: um namorado, a família, um
emprego. Com fortes vínculos com seus novos vizinhos a pessoa pode não querer  mais voltar ao mundo em que vivia. É claro
que há sempre risco. E é claro que deve ser observado o que é específico deste
caso, singular a esta pessoa em atendimento. 

Ainda outros aspectos

Com
o risco de se tornar monótono, o autor não pode deixar de ressaltar mais uma
vez a  importância predominante da
atenção para as bases categorias, para o mundo de onde a pessoa vem, para onde
se dirige, onde está. Secundariamente, durante os momentos de reflexão e planejamento,
o clínico pode fazer, para si,  certas
aproximações, levantar  hipóteses, para
observar as movimentações nas relações e pesos tópicos, que estejam
ocorrendo.  Certas coisas podem estar se
modificando ou deixando de ter validade (“não acredito mais que a virgindade é
sinal de integridade pessoal”). Nunca é demais lembrar: aquilo q constitui a EP
está vivo, em conversação permanente, com as coisas do mundo, as pessoas,
consigo etc.

Ao
filósofo clínico compete acompanhar esses movimentos existenciais, conversar
sobre as novas vizinhanças,  sempre
garantindo proximidade com a pessoa. Caminhar com ela onde e como ela estiver.
Respeitar seus modos de expressão, de ódio, de amor, de indiferença. Certos
modos da pessoa podem estar muito distantes daqueles já vistos pelo clínico,
porém, fazem parte de seu ofício procurar compreender  os modos diversos, diferentes de viver e de
se expressar que a  pessoa experimenta.  Se o clínico não tem referências em suas
experiências pessoais pode explorar um pouco a historicidade da pessoa para ir
se aproximando desses mundos de referências.

 Como diferenciar quando se deve interromper
uma clínica que está se fazendo por esses movimentos  autogênicos e buscar uma intervenção tópica?
Talvez quando o clínico começar a perceber que os movimentos da EP nos seus
mundos circundantes, nos contextos de convivências, começam a não fluir como de
hábito. São indicações que surgem nos seus relatos, nas suas expressões
corporais, faciais, em gestos incomuns, o surgimento de fatores existenciais
novos. O modo de lidar com isso pode ser retomar vínculos com momentos da
historicidade, procurar indicações de intervenções clínicas já feitas e
provocar situações que pelas reações possam dar alguma indicação do que está
ocorrendo.

Uma
maneira que pode ser útil, em alguns casos, é atentar para os modos como essa
pessoa trabalha a si própria. Como é sua autogenia, até aqui?  Quando algo novo surge na sua vida, como ela
age? Se for um problema de difícil solução, ela se desespera ou age no modo
“Rita Lee” (“tire isso da cabeça, põe o resto no lugar..”). Há casos em q a
pessoa permite que sua EP como um todo, dê um jeito de se reorganizar. O modo
de clínica via Autogenia, através da
Matemática Simbólica, abre espaço para eventual legitimidade de
“conhecimentos-desconhecidos”, de base não racionalista, apoiados em saberes
intuitivos. E isso não implica irresponsabilidade, antes, reconhece os limites
do conhecimento no campo humano.  Este
modo de trabalhar, entretanto, é para algumas pessoas, alguns modos de
organização estrutural.

Com
uma  EP com bom funcionamento nas
relações tópicas – sem grandes conflitos e choques  – essa própria configuração inclina a EP para
lugares  existenciais adequados. Uma EP
assim pode se encontrar, circunstancialmente isolada em um ambiente
desconhecido, mas tende a encontrar rapidamente modos de ajustes e formas de
comunicação com os vizinhos que vão se apresentando. Não há como a priori saber
se um novo elemento vai permanecer e se incorporar à sua vida ou se é um
elemento apenas de passagem. 

Num
momento de grandes mudanças, sempre se diz que há riscos e oportunidades,
ameaças e possibilidade de ganhos e reconhecimento. Uma EP com boa fluidez,  pode assimilar uma série de recursos que não
se dão a observar, a perceber, na vida corrente. Estando livre das principais contingências
existenciais, pode aproveitar modos de apreensão que podem lhe facilitar
decisões de vida, impensáveis em seu modo cotidiano habitual.

Não
é raro nestes momentos em que a pessoa tem que tomar alguma decisão importante,
que ela crie uma porção de limites imaginários e barreiras psíquicas que se
tornam insuperáveis.  Fazendo isso abre
mão de possibilidades que, talvez,  a sua
força estrutural poderia lhe trazer. 
Esse caminho de soltar-se à sua força “estrutural”, deixar que “sua EP”
(esse modo de fazer-se a si, do tornar-se- si-próprio, que levou toda a vida
construindo) faça o papel que já é dela. Como se observa em certas pessoas que
parecem portadora de uma força excepcional nesses momentos, ou ainda aquelas
pessoas das quais se diz “puxa, como ela é auto confiante …como é que
consegue fazer isso, nessas circunstancias!”. Mas ao clínico resta a questão de
como proceder, como saber se a “EP” 
desta pessoa não vai encaminhá-la 
para um caminho perigoso? Aqui se volta ao começo e ao sentido deste
trabalho. Quem é esta pessoa? O que
é próprio a ela? Como ela produz e se torna o que é?

 Uma pessoa “solta”, auto-confiante,
possivelmente (mas, não obrigatoriamente) tem sua organização estrutural para
direcioná-la, algo como o “submodo Zéca Pagodinho”: “deixa a vida me levar,
vida, leva eu…” E isso pode não ser 
uma “loucura” mas, algo sensato. Afinal, 
esses  caminhos já podem estar
como que  previamente estabelecidos, pela
fluência com que a pessoa se relaciona com suas 
vizinhanças conhecidas ou próximas.

Vizinho
é um nome que se usa nestes procedimentos de clínica autogênica para os
chamados  fatores  de similitude,  que são elementos que podem interferir,
reparar, encaminhar para as coisas e lugares, próximos, familiares. Vivências
anteriores podem se propagar e conversar, se relacionar com vivências atuais,
surgentes, sem que a pessoa se dê conta. O curioso é que isso é quase uma circunstancia
comum, ordinária da vida, um recurso do ser humano, que é desprezado,
deslegitimado pelo modo de conhecimento predominante. Na clínica quando é
possível um direcionamento com esta base, é dos melhores destinos existenciais
possíveis à pessoa.

Uma caso inventado de procedimento
baseado na autogenia


pra imaginar q Hanna deixou sua EP vagar livremente, a ponto de lhe trazer uma
perspectiva absolutamente diferente daquelas que suas vizinhanças habituais lhe
trariam.  Se não for assim, como
compreender o surgimento dessa nova perspectiva de seu olhar, tão distante dos
critérios, das referências culturais, epistemológicas, sociais, axiológicas de
seu ambiente intelectual e existencial, predominante naquela Nova York, de
então.

Mas
como isso foi possível?  Tudo indicava um
desdobramento completamente diferente. No seu mundo circundante este modo de
enxergar as coisas era algo simplesmente inconcebível, inaceitável.  Mas algo lhe passara na mente e ela teve a
sorte da proximidade de Malcolm, seu filósofo clínico. Mesmo este, acostumado
ao flutuar dos movimentos da EP de Hanna, ficou muito espantado. Percebeu que
se tratava de uma poderosa intuição que lhe visitara. Uma forte
transversalidade, na sua linguagem da Matemática Simbólica. Não era um
movimento existencial vertical /ascendente, nem horizontal/ estabilizado.

Mas
uma coisa é reconhecer o fenômeno, na clínica e outra é como lidar, acompanhar
e ajudar sua partilhante a lidar com ele. 
 Ela sabia que havia alguma coisa
naquela situação que fazia um sentido completamente diferente do habitual para
ela. Como é que ela pôde passar a ver naquele homem que admitia com a maior
naturalidade, sem qualquer culpa ou constrangimento, ter sido o agente das maiores
atrocidades frente a um numero enorme de pessoas? Como ver um homem atrás
disso? Como prestar atenção e ponderar suas “razões”? Razões?

Neste
texto não importa a questão propriamente, mas como foi possível a Hanna lidar
com ela e como Malcolm procedeu como clínico. 
Isto é só um exemplo, inventado.

 Ali havia um fenômeno que ela vislumbrou e que
a sua vizinhança atual não lhe dava permissão nem de considerar. Malcolm
lembrou-se do relato que ela lhe havia feito, muito tempo atrás, de sua experiência
de sair da casa de seus pais, com menos de 20 anos para seguir uma intuição
poderosa, de estudar filosofia, nos confins da Alemanha, com um jovem professor
que vinha impressionando o mundo intelectual por suas teses revolucionárias, na
fenomenologia, vinculando existência e ontologia.

Aquelas
circunstâncias, vividas quase 50 anos antes, mudaram por completo o sentido de
sua vida. E de tal forma que direcionou praticamente todos os aspectos de sua
existência. Esse modo de confiar e seguir as intuições que lhe visitavam foi
seu modo pela vida afora, nos momentos das grandes decisões. Nela, uma exímia
intelectual.  É claro que isso aconteceu,
com intensidade menor, com menores repercussões, mas, sempre com resultados
favoráveis.

Desta
vez, entretanto, a dimensão era incomensurável: a sua própria identidade estava
ameaçada; tinha o risco de perder o trabalho na universidade – que adorava –
seu prestígio na imprensa e na intelectualidade, seu reconhecimento público,
social, seus amigos etc. Mas talvez fosse mais uma vez uma oportunidade de
ampliar os sentidos de sua vida própria, de si mesma. De des-mesmificar o seu
si próprio. Bem no cerne de sua Autogenia,
de suas relações tópicas, do peso de cada uma neste re-arranjo.

É
claro que essas reflexões foram feitas por Malcolm. Que pouco a pouco foi
pesquisando modos de apoiar os passos de Hanna na direção que ela vinha
traçando.  E não deu outra: com o apoio aos
movimentos com vistas a reforçar seus vínculos com os novos vizinhos que se
apresentavam, ajudou-a a criar um bom afastamento das vizinhanças que lhe
pareciam perniciosas e dificultantes para o desdobrar dos desafios que a nova
configuração exigiria dela. Não é preciso dizer, leitor, como, depois da
situação passar, Hanna, consigo mesma, com Mary, e com outros poucos, pôde
viver uma ampliação de seu ambiente existencial inimaginável, a princípio, para
uma pessoa de sua idade e já tão consolidada.

Ainda algumas considerações

Como
compreender que uma EP pode oferecer para a pessoa uma maneira de observação sobre
si, tão diferente? É quase certo que por raciocínios e relações habituais a
pessoa não chegaria a tantas possibilidades. Os caminhos podem ocorrer por transversalidades,
mas também podem ser traçados pela pessoa  por horizontalidades ou  verticalidades. Um modo é construir novas
vizinhanças.  Os elementos horizontais
são os que estão na mesma base existencial, na mesma “realidade”, no mesmo
campo.  Quando a pessoa quer sair dessa
“realidade” é uma indicação de movimento com vetor para verticalidade.

O
elemento que mais dificulta qualquer movimento autogênico é  a intenção e controle. Se a pessoa quer mudar
mas quer garantia, certeza etc, tende a não mudar. Esse é o grande freio para o
movimento autogênico, vale dizer, para criar condições para q o próprio se
engendre de uma nova maneira para si.


muitos aspectos da vida que são incompreensíveis para a base categorial em que
se vive. Uma das mais constantes é expressa pela idéia de “coincidência”, como
se a “incidência” de algo comum não pudesse ter sido produzida, gerada com
alguma relação com alguma outra coisa. Não é preciso entrar no mundo racional
de causa-efeito, para poder observar certas relações – de natureza ainda não
referenciada e admitida como corrente – que relacionam elementos que incidem
juntos.

Em
todo o ambiente da Autogenia, da aproximação da origem e modificações daquilo
que é próprio a alguém, do modo como se pode ter certos vislumbres de quem é essa pessoa  será sempre imprescindível a historicidade da
pessoa, os exames das categorias e a formulação da  EP. Sem isso não há Filosofia Clínica. O
âmbito aberto pela Autogenia traz
possibilidades e recursos importantes para o desenvolvimento da clínica. Mas há
que se ir com prudência e serenidade, porque sendo campo de pesquisa e
envolvendo muito de perto destinos humanos, a possibilidade de interpretações
esquisitas é muito grande. Não é raro observar colegas – aderindo ou rechaçando
–  que entendem o trafegar neste campo
delicado de conhecimento-desconhecido, em que se dá boa parte de nossa
experiência humana, como justificação de 
compreensões esotéricas, religiosas ou delirantes. Nada mais longe do
que se propõe como Autogenia.  Leitor, faça o seu percurso. A caminhada, só
ela, já vale a pena.

Afinal,
permanece a questão:  quem é esta pessoa?